JANEIRO 2019

Soja e outras plantas de verão em pleno crescimento.
Citros, café e cana de açúcar enfrentando limitações do clima.

 
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(mla)
:: 15 DE ABRIL - DIA DA CONSERVAÇÃO DO SOLO
Sonia Carmela Falci Dechen - dechen@iac.sp.gov.br/www.iac.sp.gov.br
Em 15 de abril de 1871 nascia, em Anson County, Carolina do Norte, Estados Unidos, aquele que dedicaria toda sua vida à pesquisa, ensino e extensão em Conservação do Solo e que seria conhecido como o Médico do Solo, o Pai da Conservação do Solo, o idealizador dos Distritos de Conservação do Solo: Hugh Hammond Bennett.

Em 1954, já aposentado pela compulsória, mas trabalhando tão intensamente quanto quando na ativa, Bennett foi convidado pelo Dr. Guido César Rando, Diretor da Divisão de Conservação do Solo da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo – a extinta DEMA  a vir a São Paulo para conhecer e avaliar o trabalho de conservação do solo que se fazia. No dizer do próprio Dr. Guido, durante dez dias eles percorreram muitas centenas de quilômetros pelo Estado de São Paulo, tendo o trabalho que aqui se realizava recebido total aprovação do Dr. Bennett.

É interessante lembrar que, nessa data, o Instituto Agronômico já contava com uma Seção de Conservação do Solo (hoje constituindo, com outras Seções, o Centro de Solos e Recursos Ambientais) que dispunha de instalações especiais para a determinação de perdas por erosão (108 talhões coletores) em quatro locais do Estado de São Paulo, obra do Dr. João Quintiliano de Avellar Marques e do Dr. José Bertoni, ambos falecidos.

Por sugestão do próprio Dr. Guido César Rando ao Dr. Renato Costa Lima, então Secretário de Agricultura, em 1955 o Estado de São Paulo publicou o decreto-lei 24.169, de 18 de janeiro de 1955 instituindo o Dia da Conservação do Solo em 15 de abril. Nas palavras do Dr. Guido, a assinatura foi seguida de muitos festejos e a instituição da Taça Hugh Hammond Bennet, para o agricultor que apresentasse o melhor trabalho em conservação do solo.

Dono de liderança incontestável, respondendo certa vez à pergunta de como conseguia convencer os mais céticos sobre suas idéias, Bennett respondeu: “ciência, participação dos lavradores, publicidade e interesse do Governo”. Seria preciso dizer mais?

Hoje comemoramos o Dia da Conservação do Solo, mas, como nos disse o Dr. Guido, se tivesse que ter uma nacionalidade, esta seria paulista! A importância de que se reveste o tema fez com que todos os outros Estados também tomassem o dia 15 de abril para comemorá-lo e em 13 de novembro de 1989 o Presidente da República, José Sarney, sancionou como lei nº 7876, decreto do Congresso Nacional, instituindo o Dia Nacional da Conservação do Solo, a ser comemorado em todo o País no dia 15 de abril de cada ano.

A importância da conservação do solo:

Dizer da importância da Conservação do Solo é quase redundância, pois o solo, como há muito conhecido, é nosso bem maior. Entretanto, não podemos nos esquecer de que, a par da perda de solo, existem as perdas de água, de nutrientes, de sementes, de defensivos agrícolas... E se não conseguimos produzir as culturas que nos servem de alimento em solos mal cuidados, tampouco a fauna silvestre ou as florestas conseguirão desenvolver-se. Uma nação não pode sobreviver em um deserto, nem pode gozar mais que uma vã e quimérica prosperidade se ficar consumindo seu solo. Poucos se dão conta do passado e veem que a erosão tem alterado o curso da História do mundo mais radicalmente que qualquer guerra ou revolução (José Bertoni, 1985).

A erosão dos solos

A erosão é o processo de desprendimento e arraste das partículas de solo, causado pela água das chuvas (erosão hídrica) ou pelo vento (erosão eólica). Em nossas condições, a erosão hídrica é a mais importante.

A água da chuva exerce sua ação erosiva sobre o solo mediante o impacto da gota de chuva que, caindo com velocidade e energia variáveis segundo seu diâmetro, determina a desagregação do solo. Este, separado em unidades menores, torna-se facilmente transportado pela enxurrada. Assim, para controlar a erosão devemos não só deter o escorrimento da enxurrada que transporta as partículas de solo, como também, e principalmente, o efeito de dispersão dos agregados do solo pela eliminação do desprendimento das partículas causadas pelo impacto das gotas de chuva.

Fatores que afetam a erosão hídrica

Os fatores relacionados com a erosão hídrica são a chuva, o solo e o manejo que dá a ele.

A chuva é o fator climático de maior importância na erosão dos solos, pois suas características não podem ser modificadas pelo homem. O volume e a velocidade da enxurrada dependem da intensidade, duração e freqüência da chuva, sendo que a intensidade é o fator pluviométrico mais importante na erosão. A unidade em que se costuma expressar a chuva é em mm/h, ou seja, a quantidade de chuva que cai em determinada área durante o período de uma hora. Dados de chuva em totais ou médias mensais e anuais pouco significam em relação à erosão. Em duas regiões podem cair, num ano, a mesma quantidade de chuva, não significando isso que a situação seja semelhante, pois em um local pode ter caído um grande número de chuvas leves e no outro podem ter ocorrido duas ou três chuvas pesadas que contribuíram com 60 ou 80% do total. É possível que no último local, se outras condições forem semelhantes, a erosão seja mais severa. Como já se enfatizou, a intensidade é o fator mais importante da chuva: quanto maior a intensidade da chuva, maior será a perda de solo pela erosão. A duração da chuva é o complemento da intensidade: a combinação dos dois determina a chuva total. A freqüência das chuvas é um fator que também contribui para as perdas por erosão: se os intervalos entre as chuvas são curtos, o teor de umidade do solo é alto e assim as enxurradas são mais volumosas mesmo com chuvas de menores intensidades. Quando os intervalos são maiores o solo estará seco e não deverá haver enxurrada em chuvas de baixas intensidades.

Natureza do solo

A erosão não é a mesma em todos os solos. Suas propriedades físicas, principalmente estrutura, textura, permeabilidade e densidade, assim como também as características químicas e biológicas exercem influência na erosão. A textura (ou tamanho das partículas) é um dos fatores que influi na maior ou menor quantidade de terra arrastada pela erosão. Assim, por exemplo, um solo arenoso, com espaços porosos grandes, durante uma chuva de pouca intensidade, pode absorver toda a água, não havendo, portanto, nenhum dano; entretanto, como possui baixa proporção de partículas argilosas que atuam como uma ligação entre as partículas grandes, uma pequena quantidade de enxurrada escorrendo na superfície já pode arrastar grande quantidade de terra. Já nos solos argilosos, com espaços porosos bem menores, a penetração da água é reduzida, escorrendo mais na superfície; entretanto, a força de coesão das partículas é maior, o que faz aumentar a resistência à erosão.

Topografia do terreno

A topografia do terreno é representada pelo comprimento e grau de declive dos lançantes e exerce acentuada influência sobre a erosão. O tamanho e a quantidade do material em suspensão arrastado pela água dependem da velocidade com que ela escorre e essa velocidade é resultante do comprimento do lançante e do grau de declive do terreno.

Cobertura vegetal.

A cobertura vegetal é a defesa natural de um terreno contra a erosão. O efeito da vegetação pode ser assim esclarecido: (a) proteção da superfície do solo contra o impacto das gotas de chuva; (b) dispersão da água, interceptando, retendo e evaporando a água da chuva antes que esta possa atingir o solo; (c) aumento da infiltração da água pela decomposição das raízes das plantas, que formam canalículos no solo; (d) melhoria da estrutura do solo pela adição de matéria orgânica, aumentando a capacidade de retenção da água no solo; (e) diminuição da velocidade de escoamento da enxurrada ocasionada pelo aumento do atrito na superfície. Como se vê, é justamente este o fator responsável pela erosão do solo que pode ser modificado pelo homem: melhorando as técnicas de cultivo com a adoção de práticas que mantêm o solo coberto todo o tempo, como é o caso do plantio direto.

Recursos disponíveis para a conservação do solo:

Política para a conservação do solo:

o Estado de São Paulo tem a Lei de Uso, Conservação e Preservação do Solo Agrícola, de autoria do Engenheiro Agrônomo Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, promulgada em 4/7/1988 e modificada pela lei n.º 8.421 de 23/11/1993. Esta lei paulista, de n.º 6.171, só foi regulamentada em 16 de abril de 1997 pelo decreto n.º 41.719, a partir de trabalho da Comissão Técnica de Manejo do Solo da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O espírito que norteou esse decreto, sempre expresso por todos os participantes da Comissão, é o da educação ambiental. O interesse da Lei de Uso, Conservação e Preservação do Solo Agrícola é diminuir os imensos prejuízos que a erosão causa e não que ela se constitua em fonte de renda para o Estado ou em mais um instrumento para penalizar o agricultor. Baseada em critérios técnicos – Manual Técnico de Manejo e Conservação do Solo e Água (Manuais Técnicos da CATI, números 38 a 42), a regulamentação da lei visa a diminuir a erosão e a degradação do solo e promover a recuperação de sua capacidade produtiva.

Práticas conservacionistas e sistemas de manejo:

a Conservação do Solo não se reduz à simples aplicação de um número determinado de práticas: é todo um sistema de manejo do solo que assegura a obtenção dos maiores lucros possíveis sem diminuir a produtividade do terreno. Incluem-se nessa categoria um sem-número de práticas sobejamente conhecidas pelos produtores  florestamento e reflorestamento, pastagem, plantas de cobertura, culturas em faixa , mas certamente o sistema de semeadura direta ou plantio direto tem se mostrado de grande eficiência!

A Agricultura e o Ambiente

Desde o Descobrimento, o processo de ocupação territorial e de incorporação de novas áreas ao processo produtivo agrícola, ao longo dos anos, vem sendo feito sem qualquer preocupação ambiental. A expansão da fronteira agrícola vem caracterizando-se pela destruição de habitats e pela substituição de inúmeras espécies por monoculturas, colocando a Agricultura como responsável pela perda de diversidade genética.

Embora até há pouco tempo esse comportamento não fosse contestado, principalmente apoiado na justificativa da necessidade constante de aumento da produção de alimentos para redução da fome, nem todos compartilhavam desse modelo de desenvolvimento que previa a expansão agrícola a qualquer custo. Em 1898, por exemplo, Luiz Vicente de Souza Queiroz fazia um apelo ao Governo e às Câmaras Municipais pedindo algum controle da destruição das matas: "Destruir soberbas mattas de terras ubérrimas, que vão ser entregues para sempre à cultura, não é grande mal e mesmo não se poderia recriminar contra essa prática se toda a madeira de lei fosse aproveitada. Mas destruir mattas e capoeiras só para tirar duas ou três colheitas, atear fogo em quasi um disctrito inteiro, para fazer verde a algumas cabeças de gado, queimar immensos campos e mattas pela locomotiva de estrada de ferro mal dirigida, ou arrasar florestas de íngremes morros, de profundas barrocas, de nascentes d'água ou de beira de rio, ou inutilizar as mattas junto a centros populosos só para aproveitá-las com carvão ou lenha é simplesmente procedimento de bugres ou de vândalos e o governo ou mesmo as Câmaras Municipais deveriam com leis as mais severas pôr um paradeiro a tão insensato, quão imprudente procedimento".

Entretanto, não se conseguiu conter a expansão agrícola e o crescimento das cidades. No início do século o Estado de São Paulo possuía 81,8% de cobertura vegetal (aproximadamente 20.500.000 ha). Hoje, a cobertura florestal nativa do Estado de São Paulo ocupa aproximadamente 7% de sua área original, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 1992), concentrando-se principalmente nas encostas acidentadas e de difícil acesso da Serra do Mar.

Além do aspecto de decréscimo da biodiversidade, a atividade agrícola vem determinando outros impactos ambientais bastante sérios. Nos últimos 40 anos, a modernização da agricultura vem se caracterizando por alterações nas técnicas de produção baseadas em maior aplicação de capital, resultando em desigualdades regionais, modificações nas relações de trabalho e na estrutura fundiária, com reflexos sociais e econômicos na área rural. Mas, principalmente, essa modernização resultou em novos problemas ecológicos e ambientais sobre o solo, florestas, águas superficiais (rios e lagos).

A intensificação da agricultura, com máquinas e insumos químicos, gerou novos problemas ambientais: a destruição de ambientes frágeis, que atualmente se encontram em processo de desertificação, destruição e poluição do solo e contaminação das águas. Pode-se considerar que a maior parte do problema ambiental decorrente da atividade agrícola atualmente é a questão da erosão. Mas outros problemas estão crescendo: a disposição de resíduos agroindustriais e a contaminação por agroquímicos.

Apesar de todos esses impactos da Agricultura, atualmente acredita-se que a conservação ou mesmo a melhoria da qualidade ambiental pode se dar em conjunto ao desenvolvimento econômico. Ou melhor: o desenvolvimento econômico só será sustentável com a preservação ambiental. Essa mudança de visão pode ser notada em muitas regiões agrícolas onde, após problemas decorrentes da falta de cuidados com os recursos naturais, com conseqüências econômicas enfrentadas pelos agricultores, técnicas em maior equilíbrio com o meio ambiente (manejo integrado de pragas e doenças, plantio direto, recomposição de matas ciliares) estão sendo adotadas.

Em alguns aspectos a Agricultura pode ser vista como um instrumento de recuperação ambiental, procurando-se tecnologias limpas, sustentáveis e de proteção ambiental. Mas, além disso, reservas biológicas, sistemas de preservação e bancos de germoplasma precisam ser mantidos.

Ainda é difícil a aceitação da reconversão de áreas agrícolas para proteção ambiental. Não se pode abrir mão das áreas de produção (segurança alimentar), mas é possível fazer adequação dessas áreas, conseguindo, assim, a redução dos impactos ambientais das técnicas modernas e intensivas.

Na busca de soluções para problemas agrícolas, a pesquisa agrícola vem desenvolvendo técnicas mais equilibradas com o ambiente. Embora o objetivo primeiro dessas pesquisas não seja a preservação ambiental, os resultados têm contribuído para esse fim. É o caso do melhoramento genético, com plantas resistentes a doenças que reduzem a aplicação de agroquímicos, os estudos de ecologia de pragas, que encontram inimigos naturais que controlam naturalmente a população de insetos, os estudos de manejo do solo, que buscam sistemas que reduzam a erosão a um mínimo sem prejuízo da produtividade.

A agricultura sustentável é hoje tema prioritário nos diversos setores da atividade agrícola. O instrumento para o desenvolvimento sustentável, porém, é constituído pelos recursos humanos, a educação e a participação da sociedade.

Saiba mais: Bertoni, J.; Lombardi Neto, F. Conservação do Solo. São Paulo, Ícone, 1990. 355 p.

(mla)
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