JUNHO 19

Mês frio das tradicionais festas juninas, este ano deve ter calor acima da media em grande parte do país. Produtividades de plantas de inverno afetadas de forma imprevisível.

 
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(ra)
:: Nosso deserto verde 2
Fernando Penteado Cardoso - Eng. Agr. Sênior, produtor e presidente da "Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável"
Dias atrás, enquanto excursionava pelos lagos andinos ao redor de San Martin de Los Andes (Patagônia Norte/Ar), nosso guia ressaltava os bosques da encostas locais, comparando o zelo na Argentina, enquanto “no Brasil se devastavam 14.000 ha de floresta amazônica por dia”.


Na primeira parada em um mirante, chamei-o de lado e lhe disse mais ou menos o que segue:


“O Sr. mencionou a Amazônia repetindo a ladainha que está na mídia, sem que as notícias correspondam à realidade. O vale amazônico dispõe de terras férteis recobertas de floresta alta, bem como de solos fracos onde a mata é baixa que chamamos de cerrado. Geralmente as novas aberturas se dão neste tipo de vegetação porque é muito dispendiosa a remoção da mata grossa. Cortar, queimar e destocar as grandes árvores custa muito dinheiro, daí a opção pelo cerrado, cuja limpeza é menos onerosa e o solo pobre pode ser melhorado pelo emprego de calcário e de fertilizantes”.


“Existem no mundo três tipos de deserto. O deserto branco, coberto de neve, muito frio, existente na Sibéria, Alaska e Norte do Canadá. O deserto amarelo, muito seco, sem chuvas, rios e aqüíferos, encontrado no Norte da África, na Austrália e na China setentrional. E, finalmente, o deserto verde, com chuva e calor, recoberto de floresta tropical, localizado na Amazônia, na Ásia oriental e na África ocidental”.


“Para os dois primeiros, o branco e o amarelo, bem como para as encostas pendentes das matas argentinas ao nosso redor, não há opções: continuarão como desertos, desabitados, sem qualquer utilização, salvo quando o sub-solo for rico em minerais como na Ásia Menor, com seu mar subterrâneo de petróleo.


“O grande dilema surge quando há opções. Temos três situações de floresta na Amazônia: (a) terras baixas inundadas anualmente, (b) morros cheias de pedra e (c) solos altos, bem drenados, com colinas suaves (de pouco declive), recobertos de mata alta ou de cerrado, de acordo com o nível de fertilidade. Estas terras agricultáveis devem representar ao redor de ¼ de toda a área amazônica e para eles há efetivamente a alternativa de atividades agrícolas e pecuárias eficientes, econômicas e sustentáveis”.


Gostaria de ter dito mais para nosso guia, mas o intervalo se findou e voltamos todos para o ônibus que nos transportava pela belíssima região dos lagos de água azul, circundados de “cerros” com encostas de mata verde e cristas brancas nevadas.


Faltou lhe dizer mais o seguinte:


O deserto verde brasileiro, -a Amazônia-, é quase desabitado, as populações ribeirinhas, dispersas por uma imensa região, são muito pobres, desassistidas, com grande dificuldade de escolas. As atividades de coletar látex, castanhas e peixe são hoje pouco rendosas, persistindo mais por uma questão de tradição e de falta de alternativas atraentes que justifiquem mudar de vida. Mesmo o garimpo de ouro na bacia do Tapajós, se mostra precário, enquanto a lucrativa extração de mogno padece de uma eterna disputa entre o legal e o ilegal.


Mas, nós temos opções, pois chove e faz calor. Daí nosso grande dilema: manter o deserto verde em seu todo? ou aproveitar as partes economicamente viáveis, aumentando a área da produção agro-pecuária do país?


Sob a sombra do dossel das copas verdes pouco ou nada se pode fazer. Nada se produz sem a benéfica incidência da luz solar, agente da fotossíntese. Há, portanto, que remover a vegetação primária antes de tentar qualquer produção agrícola. É preciso deixar entrar luz, senão nada feito, mesmo quando se tenta reflorestar com mogno, seringueira, castanha ou outro. Antes de tudo a luz, depois as várias alternativas, por mais desiderativas que sejam.


O cultivo tecnificado torna as terras mais férteis do que antes, quando recobertas por floresta ou cerrado, inclusive quanto ao teor de matéria orgânica humificada. Em SINOP/MT, esta afirmativa está bem comprovada. As análises de terra, bem como as produtividades obtidas, mostram que o solo se tornou mais fértil após receber os nutrientes anteriormente insuficientes, mesmo na condição de mata alta.


Há outro aspecto a considerar. O posseiro, dito “safrista”, derruba novas áreas anualmente, não porque ocorra perda de fertilidade, mas porque o terreno se torna inçado, seja empraguejado de ervas daninhas invasoras. Ele é capaz de abrir, plantar e colher determinada área, para lhe garantir o sustento, controlando a rebrota a foice e facão. Depois de inçada a terra, requerendo capinas a enxada, sua capacidade se reduz a um décimo da área anterior. Então o que fazer, para obter seu provento? Uma só solução: derrubar nova mata mais adiante, a machado ou moto-serra, deixando a anterior virar capoeira ou pasto de brachiária.


São centenas de milhares de “safristas” pela Amazônia afora. O grande desafio é torná-los menos itinerantes, cultivando a mesma terra com ajuda de fertilizantes e de herbicidas. Mas o custo de produção será mais alto, e haverá que superar uma cultura e tradição seculares!


Nossa legislação sobre a proteção das florestas é simplesmente “burra” ao limitar as aberturas a 20% da área total. Sem discutir o número cabalístico de 80% de reserva florestal, o certo seria aplicá-lo sobre a Amazônia como um todo e não a nível de cada propriedade, independente das terras serem inundáveis, pedregosas ou boas para cultivar.


Que se delimitem regiões de floresta “ad eternum”, como a oeste do rio Negro, dentre outras, somadas àquelas reservadas aos índios, além dos montes de pedras e outras baixadas passíveis de inundações periódicas. Mas aplicar os 80% a cada propriedade é dispersar os núcleos povoados das fazendas, aumentando a distância entre eles, com grande encarecimento das facilidades de acesso, de luz/telefone e principalmente das indispensáveis escolas, desperdiçando, ao mesmo tempo, terras apropriadas para pastagem e cultivo.


A nível de propriedade, a preservação obrigatória deveria ser de no máximo 20%, sem prejuízo das reservas globais somarem a 80%, porém localizadas em grandes blocos contínuos, somados às áreas impróprias para utilização racional e sustentável – as chamadas Áreas de Preservação Permanente.


Estaria assim assegurada a preservação da biodiversidade, garantido o negócio do turismo e satisfeito o sentimento universal em favor das áreas verdes, sem criar obstáculos ao desenvolvimento econômico, pelo aproveitamento do nosso maior patrimônio, que é o clima de chuva e calor que se estende por grandes regiões do território nacional. Estaríamos ainda participando do suprimento da crescente demanda mundial de alimentos.


Ao mesmo tempo não estaríamos abafando e desperdiçando o espírito empreendedor e criativo dos bravos e diligentes abridores de sertão que, ao longo dos séculos, implantaram a maior riqueza do país que é sua agro-pecuária! Como seria nosso país se matas e cerrados estivessem intactos?


Não podemos nos deixar envolver pela turba anti-tecnologia e anti-progresso, composta de pseudo-ecologistas, em geral urbanos, que tanto mal causam a nossa terra ao sofrear o seu progresso.
(ra)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
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