MARÇO 2019

Colheita da soja avança para o final e milho segunda safra consolida plantio. Chuvas e calor recuperam desempenho de cultivos perenes.

 
 CARTILHA SPD
 Busca
 
Voltar VoltarImprimirEnviar para um amigo
(ra)
:: Amazônia produtiva
Fernando Penteado Cardoso - Eng. Agr. Sênior, produtor e presidente da "Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável"
Por ocasião de recente viagem ao Sudoeste do Pará para descanso no Rio S. Benedito, afluente do Rio Teles Pires, tivemos oportunidade de fazer contatos, visitar propriedades e sobrevoar áreas produtivas no Norte do Mato Grosso, colhendo informações de interesse agropecuário.

Foi-nos relatado o que o tipo de solo e sua fertilidade se relacionam à vegetação. Assim pode ser descrita na seqüência de solos mais pobres para mais ricos: "Cerrado de Pau Torto", "Cerrado de Pau Reto" (mata de transição), "Floresta Alta" e "Floresta de Castanhal". O primeiro pode ser visto em uma faixa bem definida de direção leste - oeste , entre os Rios São Benedito e Cururu-Sudoeste do Pará (2), onde os solos arenosos são de extrema pobreza; os últimos na latitude de Alta Floresta/MT, desde o Rio Teles Pires até o Juruena. Nestes aflora a rocha granítica, o teor de argila está na ordem 50%, o pH próximo a 6 e os numerosos córregos que os entrecortam não ensejam lavouras contínuas de grande extensão, como acontece nos "chapadões". Nas partes úmidas desta formação estão os magníficos e valiosos mognos, sempre esparsos, na proporção de uma árvore para cada 10 a 15 ha.

Em Alta Floresta visitamos a exposição de gado de corte, com grande predominância de Nelore, em correspondência ao rebanho da região. Animais de cocheira, super alimentados, de gordura exuberante, para gáudio dos criadores envaidecidos, conhecedores do que vai por Uberaba, com sua inexcedível Expozebu.

Mas não é só do gado fino que se ocupam os criadores. Relataram-nos os índices obtidos na Fazenda Colibri, localizada em Nova Monte Verde/MT, para os lados de Rio Juruena. São 1.200 ha de brizanta e tanzânia, sub-divididos em 48 piquetes, formados há cerca de 10 anos em terra fértil de castanhal. As 750 matrizes Nelore vêm sendo selecionadas há 12 anos pela fecundidade, com descarte metódico das "vazias". No último "toque"as primíparas acusaram 78% de prenhêz e 98,75% das demais vacas estavam "cheias". Na desmama, 70% dos bezerros pesam acima de 230 kg, alguns alcançando a 315 kg. A vacada pesa de 15 a 16 @ e os bois comercializados aos 21 meses pesam 15,5 @ em média.

Prosseguimos por rodovia de Alta Floresta até Peixoto de Azevedo passando por Nova Guarita / MT. As castanheiras vão escasseando, o solo torna-se mais ácido, mas as pastagens continuam bem formadas e limpas graças ao milagre da Brachiaria brizantha. No percurso pernoitamos a Fazenda Pontal, do Sr. José Peres Duran, paulista de Pirassununga, entusiasta pelo Nelore Lemgruber, valorizando sua docilidade. Tem vários retiros com pastos sub-divididos para uma rotação cerrada de 3 dias de pastoreio por 30/35 de descanso. A propriedade vem se diversificando, entrando agora na fase da soja/milho, tendência que vínhamos notando no decorrer do percurso.

Em Peixoto de Azevedo hospedamo-nos na Fazenda Ana Rosa, onde Joa Junqueira nos mostrou o trabalho de cruzamento absorvente da raça Bonsmara, a partir de vacas com ½ sangue taurino, com bezerros que impressionam muito bem pela aparência geral e pela uniformidade. O que se pretende é mais precocidade, tanto em ganho de peso como em maturidade sexual, o que nos leva a questionar o tempo desperdiçado com o melhoramento do Nelore em ambiente de cocheira, visando tamanho e beleza, em prejuízo da precocidade e da adaptação ao ambiente natural das pastagens.

De Matupá voamos até São José de Xingu para conhecer a região. Do alto observamos a Fazenda Cachimbo, iniciativa pioneira da família Ometo, dando origem à cidade próxima, planejada com largas avenidas em ambiente de modernidade. Prosseguimos rumo leste sobrevoando a reserva indígena de Xingu que, para nossa surpresa mostra uma floresta intocada, de alto porte, porém sem castanheiras, predominando a itauba, a garapeira e o jatobá. À margem direita do Rio Xingu localiza-se uma das aldeias de índios cajabí ou carajás, próximo a balsa motorizada, cujo "pedágio" é cobrado em benefício da tribo. Pensamos então: porque não constituir grandes reservas florestais do governo, ao invés de limitar as aberturas de floresta a 20% da área perimetral? Essa restrição leva à dispersão das propriedades, distanciando os núcleos habitados, assim dificultando e encarecendo as vias de comunicação, o escoamento da produção, o transporte escolar, a assistência médica, a eletrificação e o convívio social dos moradores. Com relação ao reflorestamento, foi-nos relatado que até o momento somente a asiática "teca" (Tectona grandis) vem dando algum resultado, existindo áreas significativas com esta plantadas. Os esforços de reflorestar com mogno e com "pinho cuiabano" não apresentaram resultados compensadores.

Não notamos derrubadas novas durante o sobre-vôo. As aberturas foram feitas 15/20 anos atrás a partir do povoamento das áreas a Oeste da bacia do Rio das Mortes. Ao invés de desmatamento observamos a entrada da soja, ocupando pastagens antigas nas quais o destocamento não apresenta mais custos muito altos. Muita terra gradeada para corrigir o terreno a ser posteriormente preservado pelo plantio direto. O escoamento da produção se faz hoje rumo sul pelo espigão divisor das águas entre o Xingu e o Araguaia, rumo a Água Boa e Barra do Garças, para a seguir cruzar Goiás e São Paulo até o Porto de Santos. Parte da produção vem sendo escoada tambem para o Norte via Vila Rica, Conceição do Araguaia/PA e daí atér a Belém /Brasália com transbordo para a ferrovia Carajás-Itaqui/MA. O grande sonho manifestado é sair para leste até Matupá e para norte até Santarém, com bom calado no Rio Amazonas.

São José do Xingu, vista do alto, é uma vila bem arborizada por mangueiras no fundo dos quintais. Muito modesta, pobre mesmo, baseada na atividade pastoril, quando a renda da pecuária fica nas grandes cidades e o consumo local limita-se à escassa população de peões, boiadeiros e capatazes. Agora se prepara para a chegada dos gaúchos com suas lavouras, máquinas, bombachas, CTG"s e chimarrão, mas consumindo combustíveis, utilizando oficinas mecânicas, postos de serviços e enriquecendo a comunidade pelo fato de residirem nas fazendas e freqüentarem a cidade, ai fazendo suas despesas, fortalecendo a economia local.

Próximo a aero-pista há uma área bem formada em Pannicum em meio a Brizantha predominante. Comentando o fato, disse-me um criador: "sabe lá quanto se gasta com herbicidas para manter aquele pasto limpo"! Almoçamos na Fazenda 3R, do Sr. Rômulo de Moura: carne no espeto, mandioca cozida, arroz e salada, servidos na área aberta no centro da construção, em sentido transversal ao vento, que se acelera pelo efeito "Venturi", assim amenizando o calor, para conforto dos convidados acomodados nos bancos laterais da comprida mesa tradicional. Nas conversas, -sobre o binômio Nelore-Brachiaria, é claro!,- o proprietário referiu-se ao Retiro de nome Jatobá, onde os garrotes engordam melhor, dentre as pastagens de brizanta muito bem formadas e limpas. Mais uma referência a regiões e pastos "bons de engorda", ocorrência da maior importância ainda mal estudada pelos nossos órgãos de pesquisa, como comentado, alguns anos atrás, em artigo sobre o assunto (3).

A seguir voamos até a Faz. S. Francisco, já em Peixoto de Azevedo. O proprietário, Sr. Francisco Preto Ribeiro, português dinâmico, de idéias bem definidas, mostrou que sabe muito bem onde quer chegar. Salvo a cozinheira, não há mulheres na fazenda, onde os vaqueiros ficam em alojamentos, os casados deixando as esposas na cidade. São 10.000 matrizes Nelore, nenhuma "vazia" no ano anterior, em regime de cobertura contínua, sem estação de monta. No último ano, o toque feito por ocasião da desmama, revelou 91% de prenhês, índice que se ajusta para 88% de parição e 85% de desmama. Chico Preto, como é conhecido o proprietário, informou que marca a fogo os bezerros bem novos, enquanto não correm, o ano na cara, o mês na perna, ambos do lado esquerdo. Assim saberá a idade das matrizes que remanescem no rebanho. Em sua opinião, o gado sofre e não ganha peso nos meses de muita chuva, devido ao encharcamento e falta de lugar seco para dormir. Isso retarda o acabamento, sendo os bois abatidos com 36 meses em média.

No clima local, em que o capim fica amarelado, mas nunca seca na estiagem de Julho/Setembro, os nascimentos ocorrem na proporção de 34% nos cinco meses de Janeiro a Maio e os restantes 56% de Junho a Dezembro. Diz Chico Preto que o ideal seria a parição uniforme todos os meses, permitindo a metodização das tarefas de campo, sem grandes rodeios de tempos em tempos. É grande entusiasta da Brachiaria. dictyoneura, que considera de mais fácil manejo e de maior capacidade de suporte. A lotação média é de 2 cabeças por há em sistema de manejo contínuo, densidade facilmente confirmada do alto, nas imensas áreas verdes densamente salpicadas de branco. Os 1.100 reprodutores Nelore, que cobrem uma média de 22 vacas por touro e mantidos no rebanho em regime de rotação, são adquiridos com 2 anos de idade no estado do Paraná. Também interessante é o seu sistema de manejo contínuo, em lotes pequenos, quando os animais se conhecem melhor e são mais eficientes. O bem sucedido empreendimento, levou-me a questionar sobre a necessidade de estaçào de monta e rotação de pastos, recomendações que se tornaram dogmas entre nossos técnicos. Os argumentos de Chico Preto para a monta ininterrupta e pastoreio contínuo são bastante convincentes para as condições do ambiente local. Digo convincentes porque se trata de um criatório com mais de 17.000 cabeças, cerca de 11.000 parições por ano e todas as demais lidas de desmama, apartações, castração, embarques,etc., executadas com menos de 25 peões!

Pena que o imperativo de retornar antes do por do sol nos obrigasse a partir sem completar o aprendizado que a Faz. S. Francisco proporciona a quem tem a mente aberta e vontade de aprender. Não me ocorreu perguntar a opinião de Chico Preto sobre a nova obrigação de colocar brinco e botão nas orelhas de todos os bezerros, mantendo dados cadastrais vinculados a códigos de barra e preenchendo longas relações para cada caminhão carregado, com prévio carimbo da autoridade competente, e gastando R$4 a R$5 por cabeça produzida. Certamente pensaria que eu estava mal informado tal o absurdo da pergunta, com risco de soltar um palavrão dirigido a quem inventou e quer manter esse "complicômetro" para os criadores, cujas justificativas são discutíveis em uma pecuária saudavel baseada no verde a ceu aberto.

Mais tarde, ao comentar com Joa tudo que vimos e ouvimos, perguntei-lhe sobre custos. Bem informado, resumiu o investimento previsto para uma fazenda com 1200 ha de pastagem, em mata de transição, abrindo os 50% permitidos: 1) Terra: 2400 ha a $600 (distância média) - R$1.440.000; 2) Desmatamento de 1200 ha com moto-serra a R$200/ha - R$240.000; 3) Semeação aérea e semente a R$60/ha - R$72.000; 4) 30.000m de cerca a R$3,30/m - R$100.000; 5) Curral R$50.000; 6) 2 moradias R$40.000; 7) Compra de 2.400 bois magros a R$400 cada - R$960.000; Total geral R$2.902.000, exclusive custos financeiros durante a implantação e maturação que tomam de 2 a 3 anos até a primeira receita. A venda bruta de 2300 bois (perda de 3%) com 17@ a R$45/@ somaria a R$1.760.000. Após dedução do custo de aquisição e do custeio a base de R$120/cabeça/ano, haveria um saldo liquido de R$450.000, sejam 15% sobre o investimento, para atender aos riscos do negócio, ao gerenciamento e à remuneração do capital. Os valores são aproximados e variam conforme o local.

Essas quantias deveriam ser analisados pelos nossos ecologistas "clorofilados" que desconhecem quanto custa a mal qualificada "devastação", quanto essas aberturas significam para a economia do país em relação à floresta intocada que nada produz e quantos empregos, diretos ou indiretos, são gerados pelo trabalho e pela iniciativa dos pioneiros de nossas fronteiras. Nossos ambientalistas intelectualizados deveriam entender que o desmatamento produtivo custa suor, dinheiro e intelecto: não advém de um "sopro devastador" de um operoso patrício desbravando o sertão e criando riqueza. Ele está apenas captando a luz solar, que faz parte do ambiente tropical.

No vôo de retorno até Cuiabá pudemos admirar os extensos chapadões de SINOP, Sorriso e Lucas do Rio Verde, em plena produção de milho "safrinha", após a colheita de soja feita em Janeiro/Fevereiro.

Procuramos relatar fatos e observações que revelam um alto nível tecnológico da nossa pecuária de fronteira. Nossas poucas opiniões e conclusões, provêm de viagem particular, por conta própria, no anseio de ver de perto o que acontece pelo Brasil a fora.

País fantástico, onde chove e faz calor sobre grandes extensões de terra alta! E onde há brasileiros dispostos a arregaçar as mangas, trabalhar e "tocar o país pr"a frente"!

(1) Eng. Agr. Sênior, Fundação Agrisus, S. Paulo
(2) Vide Imagem "pa51__13", Brasil do Espaço, "www.embrapa.br"
(3) "Zonas Boas para Engorda"- Agrolida, S.Paulo, 2000
(ra)
Voltar VoltarImprimirEnviar para um amigo

Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
Contato: agrisus@agrisus.org.br e agrisus@fealq.org.br