JANEIRO 2019

Soja e outras plantas de verão em pleno crescimento.
Citros, café e cana de açúcar enfrentando limitações do clima.

 
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(ra)
:: Amazônia dos Mitos
Fernando Penteado Cardoso - Eng. Agr. Sênior, produtor e presidente da "Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável"
Francisco Orellana, descendo o Rio Maranon em 1541 à procura do soberano que se cobria de ouro, dito "El Dorado", - daí Eldorado-, teria enfrentado mulheres brancas guerreiras, denominadas "amazonas" na mitologia grega. Diz a lenda que um cacique confirmara a existência dessas valentonas que moravam "solteiras" em uma cidade de pedra e que só aceitavam homens quando lhes aprazia. A história repetida das amazonas passou a dar nome ao rio hiper caudaloso até então conhecido por Mar Doce ou Rio Grande.

O nome do grande rio se estendeu a toda a bacia. Assim, o nome da Amazônia tem origem na mitologia, o que pode explicar vários dos mitos que, repetidos com freqüência, vão adquirindo colorido de verdades, em que pese serem discutíveis seus fundamentos.

As notícias sobre artigo no "Economist" de 24 de Julho pp. e sobre a III Conferência Científica do LBA (Large Biosphere-Atmosphere Experiment in the Amazon, 1500 participantes, 800 trabalhos, patrocínio do MCT, Julho 04) informam que a floresta é um sorvedouro (sink) de carbono, assim contribuindo para amenizar o efeito estufa sobre o planeta.

Ora, todos sabem que a floresta acha-se em estado de "clímax", seja em equilíbrio, quando o gás carbônico absorvido pela fotossíntese corresponde à quantidade desprendida pela decomposição da manta de detritos chamada de serapilheira. Assim não fosse, as árvores cresceriam continuamente atingindo dimensões incomensuráveis se não desprendessem galhos e folhas. Por outro lado, se os detritos vegetais não se decompusessem, desprendendo gás carbônico, eles se acumulariam ano após ano vindo a sufocar a vegetação. Esse estado de equilíbrio resulta na troca balanceada de oxigênio e de gás carbônico com a atmosfera, caindo por terra o mito de "pulmão do mundo".

São confusas, igualmente, as assertivas míticas sobre queimadas. É preciso entender que a floresta alta não se incendeia, não queima mesmo que se ateie fogo. Somente os campos e cerrados, forrados de gramíneas, pegam fogo de tempos em tempos, quando secos, seja por descuido ou propósito do homem, seja em decorrência de faísca elétrica. A queima desses capins vem acontecendo ao longo de milhares de anos, resultando na seleção das arvores protegidas por tronco corticoso que isola o calor, sendo que algumas espécies somente florescem ou liberam semente de suas cápsulas por efeito da elevada temperatura, sem o que não se perpetuariam. A flora do cerrado é aceita como em "clímax" e o fogo periódico faz parte desse estado de equilíbrio, sendo que a vegetação subseqüente re-absorve o gás carbônico desprendido durante a queima.

Os aerossóis da fumaça de origem vegetal são refletores da radiação solar, evitando que aqueça o planeta, assim atenuando o propalado efeito estufa. Isso acontece tanto nas queimadas dos campos e cerrados como da floresta alta após ser derrubada para secar. No segundo caso, há uma liberação do gás carbônico fixado ao longo de milênios pela mata em crescimento até atingir seu "clímax". Todavia, boa parte desse gás é re-absorvido pela vegetação subseqüente, seja de gramíneas para pasto, seja de culturas comerciais como arroz ou soja, seja ainda do retorno da floresta secundária conhecida por capoeira e, principalmente, do aumento do teor de húmus no solo resultante do plantio direto. O impacto sobre o efeito estufa é muito menor do que se apregoa.

Os pequenos agricultores da Amazônia, conhecidos por safristas ou posseiros, derrubam e queimam pequenas áreas todos os anos, não porque o solo tenha perdido a fertilidade, mas porque a infestação por ervas daninhas reduz a dimensão da área que podem cuidar. Uma pequena família é capaz de derrubar, plantar, fazer a limpeza e colher arroz, mandioca ou milho em cerca de 10 ha, tendo o machado, a foice e o facão por ferramentas. Depois de dois anos, sua capacidade se reduz 2 ou 3 ha, quando o terreno se torna praguejado, requerendo capinas a enxada. A colheita se torna insuficiente para seu sustento e comércio, não havendo melhor solução do que fazer nova abertura.

Estima-se a existência de 400/500 mil pequenos agricultores, que desmatam anualmente cerca de 2 a 3 milhões de ha. É uma prática secular vinculada à subsistência de famílias esparramadas pela imensidão de nosso deserto verde, como descrito pelo Padre João Daniel que viveu na Amazônia lá por 1750 e escreveu inédito relatório**. Alterar esse sistema econômico de derrubar/ queimar/ plantar, seguido de rotação com capoeira, como antes já faziam os índios, é tarefa para anos e anos.

Muitos outros mitos e hipóteses merecem ser oportunamente esclarecidos, tais como a alteração do clima local e do sul do país, a "savanização" pós-desmatamento, a área requerida para preservar a biodiversidade, o desperdício de áreas boas para plantar, a interpretação de fotos oriundas dos satélites, o significado das fontes de calor detectadas lá da estratosfera, a utopia do desenvolvimento sustentável baseado na floresta, o risco do desmatamento total, a revolução agrícola tida como devastação, etc.

Mas, toda e qualquer análise deve abranger o "outro lado da medalha", como seja o aumento da vazão das nascentes e córregos, a redução da malária, a melhoria da fertilidade pelo aporte de nutrientes em falta, a produção advinda da terra recuperada, a geração de milhares de empregos, a difusão da civilização brasileira, dentre outros.

Os ecologistas que vão para o mato conhecem tudo que descrevemos e muito mais. Os urbanizados, principalmente do exterior, deveriam conhecer a realidade do sertão, poupando os interessados, menos informados, de sua cansativa e monótona ladainha de histórias de fim do mundo.

A expansão da agro-pecuária graças à iniciativa e à capacidade de empreender e trabalhar de nossos patrícios é uma realidade notável. Eles estão captando a energia solar através da fotossíntese, que não ocorre sob a sombra do dossel das copas arbóreas. Estão capitalizando o clima de verão chuvoso que a Providência nos concedeu. Estão enriquecendo nosso país, com reflexos benéficos para toda a sociedade. Isso não é um mito!
(ra)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
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