JANEIRO 2019

Soja e outras plantas de verão em pleno crescimento.
Citros, café e cana de açúcar enfrentando limitações do clima.

 
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(ra)
:: Pastagem após e antes da soja
Fernando Penteado Cardoso - Eng. Agr. Sênior, produtor e presidente da "Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável".
Durante o ano de 2005 foi instalada em Sto. Inácio/ PR* uma experiência financiada pela Agrisus objetivando a produção de forragem, entre duas culturas de soja, na forma de pasto a ser utilizado para produção de leite, proporcionando sobras de resíduos para o plantio direto subseqüente. O delineamento levou em especial consideração as variações climáticas imprevisíveis do NO do Paraná, com invernos ora amenos, ora bastante frios, mas com precipitações satisfatórias.

O solo local é do tipo arenoso, da série Caiuá, com menos de 20% de argila e silte, pouco coeso e sujeito a encrostamento, assim muito pouco resistente à erosão. A mata primária de porte médio/ alto, com predominância de perobas médias, foi aberta na década de 1940 para plantio de café. Geadas e queda da fertilidade resultaram na substituição dos cafezais por lavouras e algodão e cereais. O agravamento da erosão levou à formação de pastagens, geralmente de braquiárias, as quais, mais recentemente vêm dando lugar às culturas de cana e da soja amparada pelo sistema do plantio direto.

A fertilidade original é média, com teores de bases(2/3 cmol/ dm3) e MO(1/2 %) baixos, compatíveis com a textura arenosa. O P extraído por resina é baixo, seguindo a regra da maioria dos solos tropicais. A acides é média(pH 5/6- H2O), com toxidez por Al inexistente ou muito baixa. A CTC (4/5 cmol/ dm3) e a saturação (50/60%) são médias, a primeira dentro da faixa das terras arenosas.

No decorrer do experimento, seja de Fevereiro (semeação) a Outubro (dessecação), o clima foi antes quente, sem geadas, com precipitação total de 500 mm, sem ocorrência de déficit hídrico. Entre Abril e Setembro a média das máximas foi de 32º.C, das mínimas de 10ºC., sendo a mínima absoluta de 6ºC no correr de Julho.

Nesse contexto, a produção de forragem no inverno, no intervalo das culturas de verão, apresenta viabilidade econômica.

*No. 119. 05-Local Estância Jae- Colab.Univ.Est. Maringá- Resp. Eng. Agr. Fernando Sichieri

Tratamentos e Execução

Dentro das preliminares apresentadas, foram definidos 5 tratamentos, tomando por base experimentos nos anos anteriores, visando uma adaptação às mencionadas flutuações climáticas:

T1 (M+R>Av.01) Sobresemeio de milheto(M)+ B.ruzizensis (R) seguido de aveia FMS-1 em SPD após pastoreio inicial;

T2 (M >Av.126) Sobresemeio de milheto(M) seguido de aveia IAPAR 126 em SPD após pastoreio inicial;

T3 (M >Av.61) Sobresemeio de milheto(M) seguido de aveia IAPAR 61 em SPD após pastoreio inicial;

T4 (S + R) Sorgo(S)+B.ruzizensis, sem aveia.

T5 (R+T) B.ruzizensis + P.max.Tanzânia(T), sem aveia.

Cada tratamento constava de duas parcelas de 1,5 ha aproximados cada uma, sendo que os valores foram calculados pela média aritmética. O experimento ocupou um total de 16 ha.

O sobre-semeio foi feito em 29.02.05, no inicio da senescência, mas a germinação somente ocorreu com as chuvas de 14.03.05, coincidente com a colheita feita a 15 de Março. A aveia foi semeada a 29 de Maio, sobre o milheto já pastoreado.

As variedades de aveia objetivaram conhecer o comportamento de três cultivares dessa gramínea de inverno. Assim foram observadas as variedades de aveia: FMS-01 mais tolerante ao calor; IAPAR-126, de ótimo desenvolvimento e IAPAR-61-, de ciclo mais longo de 150 dias.

As sementes dos capins eram capeadas (nucleadas, recobertas, revestidas), de alto poder germinativo, tratadas com fungicidas e nutrientes. Milheto e aveia eram normais.

Nos 5 tratamentos foi cercada uma área de 30 m2, para avaliação da massa sem pastoreio e no T5 houve uma sub-parcela com sementes não tratadas para efeito comparativo.

O pastoreio de cada parcela obedeceu à seguinte escala: T1, T2 e T3 - 9/5 a 28/5 (19dias) e 3/8 a 4/9 (31 dias), totalizando 50 dias; T4- 9/5 a 28/5 (19 dias) e 3/8 a 14/9 (41 dias) totalizando 60 dias, T5- 3/8 a 14/9, no total de 41 dias. A pressão de pastoreio foi definida com base na aferição da massa disponível, medidas no inicio de cada período e ajustando o número de rezes em função do consumo. Todas as parcelas receberam 30 k/ha N e 30 k/ha K2O em 24 de Junho.

A massa residual para o SPD, foi medida no final do pastoreio (vedação) e após dessecação. A produção de massa para cada tratamento foi calculada: a) com base no consumo presumido (12 k MS/ cab/ dia) acrescido do estoque final; b) pelo estoque final das parcelas não pastoreadas.

Foram coletadas amostras de folhas e de colmos em diversas fases de desenvolvimento, obtendo-se valiosas dados agrostológicos merecedores de analise especializada em outro relatório.

Resultados
1-Produção total de forragem –

No Q1 são comparadas a produção presumida de matéria seca- MS com a produção das parcelas não pastoreadas:

Q.1- Produção de Forragem - k/ ha MS


Trat....Diárias*...Consumo**..Estoque final...Pastoreado...Não Pastoreado

..T1........153.............1836...............3519...................5355.................3664
..T2........129.............1548...............2716...................4264.................3193
..T3........136.............1632...............2250...................3882.................3731
..T4........176.............2112...............4872...................6984.................7616
..T5........235.............2820...............6092...................8912...............11619

*No.rezes x No.dias **Presumido:12k MS/ dia/ vaca

Os valores são apenas uma ordem de grandeza, pois não foram avaliadas as perdas por pisoteio e decomposição. As produções foram mais elevadas nos tratamentos com brachiarias, resultado esse que poderia ser diferente caso ocorressem geadas. A discrepância entre a produção presumida e a não pastoreada, merece ser mais estudada pois os hábitos de crescimento das várias espécies é muito diverso, sendo umas permanentes e outras estacionais.

-Produção de Leite –

O Q.2 indica a produção de leite em litros por ha/ dia considerando os dois períodos de pastoreio e comparando com a massa residual.

Q.2- Produção de Leite - l/ ha


Tratamento...1º período l/ha...2º período l/ha...Prod.total l/ha...Resíduo MS k/ha

..........T1....................402....................1017....................1409....................2762
..........T2....................346......................803....................1149....................1640
..........T3....................364......................904....................1268....................2309
..........T4....................386....................1043....................1429....................3666
..........T5......................--.....................1927....................1927....................4630

O primeiro pastoreio de 19 dias mostra produções bastante próximas, com leve vantagem para os tratamentos 1 e 4 com brachiárias. Já no 2º. pastoreio, confirmando a vantagem da brachiaria (T1,T4,T5) ha uma vantagem acentuada para o T5 que suportou uma carga animal muito intensa. Em nenhum caso ocorreu superpastoreio a julgar pela massa seca remanescente. Mais uma vês deve-se lembrar que em anos frios os resultados poderiam ser diferentes, com vantagem para as aveias.

3-Qualidade das forragens-

O Q 3 compara as produtividades por vaca/ dia.

Q.3- l/ vaca/ dia


Tratamentos......1º período..........2º período........PB média %

.........T1.......................7.0......................10.6....................15.40
.........T2.......................7.2........................9.8....................19.60
.........T3.......................7.0......................10.8....................17.61
.........T4.......................7.0........................8.6....................12.16
.........T5....................... -- .........................8.2....................12.83

No primeiro período com oferta de milheto (T1,T2,T3) e sorgo( T4), a lactação foi uniforme. No segundo período nota-se uma nítida vantagem da aveia (T1,T2,T3) sobre os tratamentos sem aveia (T4,T5), que pode ser estimada em 20%. Essa vantagem mostra razoável correlação com a PB ofertada, de maior teor nos tratamentos com aveia.

4-Biomassa para o SPD subseqüente-

O Q4 mostra a massa remanescente no inicio e fim do período destinado à recuperação vegetativa, objetivando a formação de resíduos (palha) para a soja sob SPD

Q.4- k/ ha


Tratamentos....MS em 4/9......MS em 6/10......Recup./dia/ha

.........T1...................2762....................3519...................23.6
.........T2...................1640....................2716...................33.6
.........T3...................2309*..................2250...................... --
.........T4...................3666....................4872...................37.7
.........T5...................4630*...................6092.................210.4

MS em 14/9

Apesar da pesada carga animal, o tratamento T5 mostra o maior estoque de resíduos e, alem do mais, foi o que mostrou maior recuperação entre a vedação e a dessecação. O Tratamento T3 mostra que a aveia tardia (61-IAPAR) não rebrotou, assim pouco contribuindo para a biomassa final. Os tratamentos T4 e T5, principalmente o último, sugerem que o pastoreio poderia ser mais intenso com conseqüente acréscimo da produção de leite.

A persistência dos vários tipos de palha,seja da biomassa, mereceu projeto de pesquisa específico que está em andamento, em continuidade ao experimento ora relatado. Algumas medições feitas pouco antes da colheita da soja dão uma idéia preliminar do comportamento dos resíduos dos vários tratamentos:

Tratamentos......MS em 6/10/05......MS em 3/03/06
...........T1........................3519.................1333 - 37,9%
...........T2........................2716...................386 - 14,2%
...........T3........................2250...................273 - 12,1%
...........T4........................4872.................1133 - 23,2%
...........T5........................6092.................2680 - 44,0%

As medições feitas indicam clara diferença de persistência em favor dos tratamentos em que havia braquiária (T1 e T5) ou alguma braquiária (T4), enquanto que os tratamentos de milheto seguido de aveia (T2 e T3) mostraram mais rápida decomposição. A análise desses dados deve considerar que a persistência da biomassa é inversamente proporcional à velocidade da reciclagem dos nutrientes.

5-Capeamento da semente-

O Q5 oferece a comparação entre semente de capins capeadas (revestidas/ recobertas/nucleadas, alem de tratadas com fungicida+nutrientes) e as normais, conforme dados obtidos em uma sub-parcela do tratamento T5, pela contagem de touceiras existentes e avaliação da altura das plantas.

Q5- Touceiras, perfilhos p/m2 e altura


Tratamento.............No.de touceiras....Perfilhos....Altura*- cm

T1- capeada.......................5,4........................--.................52R
T4- capeada.......................4,8........................--.................33R
T5- capeada.......................8,7......................238...............42 R+T
T5-não capeadas...............4,9......................218...............27 R+T

* Em 6/10/05

Ha que considerar que, dentro da mesma espécie, as capeadas têm menor número de sementes que as normais, por unidade de peso. O experimento preliminar não indica o número de sementes vivas em cada tratamento, sendo por conseguinte apenas indicativa. Todavia, os números e as observações visuais estão a sugerir que o capeamento resulta em um melhor vingamento após germinação e que o tratamento com “fungicidas + nutrientes” resulta em plantas mais saudáveis (altura).

Conclusões

Na condição climática de inverno ameno e úmido e ressalvando a falta de repetições para uma validação científica, os resultados a nível semi comercial, sugerem que:

1- É possível produzir até 2000 l de leite p/ ha, exclusivamente a pasto, durante os 180 ias no intervalo entre a colheita de soja (Março) e a vedação para rebrota (Setembro).

2- As brachiárias mostraram a maior capacidade de produção de forragem e conseqüentemente de leite.

3- A aveia mostra ser a gramínea mais rica e qualitativamente superior, porem de menor capacidade produtiva por unidade de área.

4- Dentro dos limites das produções de leite obtidas, pode-se conseguir mais de 4000 k/ ha de resíduos vegetais para assegurar o plantio direto.

5- O tratamento das sementes de capins com fungicidas e o revestimento com inertes contendo micro-nutrientes mostram-se promissores, merecendo melhores avaliações
(ra)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
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