JANEIRO 2019

Soja e outras plantas de verão em pleno crescimento.
Citros, café e cana de açúcar enfrentando limitações do clima.

 
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(ra)
:: Plantio direto em cana-de-açúcar
Fernando Penteado Cardoso - Eng. Agr. Sênior, produtor e presidente da "Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável".
Relato de Caso: 78,2 ha com 11 Cortes após queima.

Em Abril de 1995, após a colheita de soja, foram plantados 78,2 ha de cana RB72454, que produziram 79 t/ ha no 10º. corte, com média de 100,8 t/ ha nesse período.
A área é parte de uma lavoura de 300 ha na Faz. Aparecida em Mogi Mirim/ SP.

Esse canavial vem sendo tratado no Sistema de Plantio Direto tendo a terra sido perturbada exclusivamente pela sulcagem de plantio e por 2 passagens de facão no centro das entrelinhas para aplicar adubo fosfatado. Nenhum preparo de solo, nenhum cultivo mecânico.

A TERRA

Trata-se de um latosolo roxo estruturado eutrófico-LREe, dito "terra roxa legítima encaroçada", de mata atlântica de porte alto, com todos os padrões de fertilidade: figueira branca, pau d"alho, perobas grossas, jaborandí e palmito juçara, dentre outros, ainda presentes em pequena reserva da floresta primária.

A abertura ocorreu na década de 1890, para cafezal por 60/70 anos. Em 1960 a terra estava erodida, com profundos valos, quando foi recuperada por correção do perfil, terraceamento e calagem. Seguiram-se culturas anuais em rotação (5 anos de cana em 1985) até o plantio do canavial em 95.

Nos 35 anos que antecederam o canavial, a terra recebeu adubações periódicas de fósforo e potássio, representando, ao longo desse período, cerca de 2100 kg/ha P2O5 e 1400 kg/ ha K2O alem de calagens. Ao final desse período, seja em 1995, a terra (0/30 cm) foi analisada pelo Lab.da Copersucar mostrando as seguintes faixas:

pH- 5,8 / 5,9 H2O
MO- 2,65 / 3,19 %
P- 0,35 / 0,43* meq/100ml
K- 0,12 / 0,14 meq/100ml
Ca- 3,65/ 3,74 meq/100ml
Mg- 1,23/ 1,29 meq/100ml
Al 0,0
S bases- 5,1 meq/100ml
CT- 8,6/ 9,2 meq.100ml
V%- 55/ 59%
Argila- 52,4%
Silte- 20,1%
Areia Fina- 13,0 %
Areia Grossa- 14,3 %
Dens.-SO- 1,26/1,39 g/cm3
Dens.-SS- 1,09/1,23 g/cm3

*ac.sulf. 0,5N

Duas trincheiras mostraram leve adensamento a 25cm, dispensando correção, alem de estar acima do fundo do sulco do plantio.

Em 1996, foi determinado o teor de Ca trocável e total a 1m de profundidade, comparando-se com solo distrófico vizinho: LREe- 2,3 troc. e 2,7 total (meq.100ml); LVAd- 0,4 troc. e 0,4 total (idem). A comparação com a camada superficial dá uma idéia do efeito das calagens anteriores.

Em 1997 e 1998 foram analisados os micronutrientes.

Nos anos subseqüentes foram analisadas novas amostras de terra objetivando conhecer tanto a evolução da fertilidade, como o estudo de problemas específicos como a avaliação de "manchas" de maior ou menor produtividade, o estudo de áreas que comparativamente mais sofreram com a seca de 2000, a disponibilidade de K solúvel em água comparado ao trocável e a movimentação do Ca em profundidade. Desse acompanhamento resultaram diretrizes para adubação como descrito a seguir.

Em Maio de 2002 foram analisadas folhas de cana em diversas situações de fertilidade do solo e idade da cana, objetivando obter diretrizes de adubação em função do estado nutricional das plantas. A comparação com as análises dos respectivos solos mostrou uma alta correlação com K, baixa correlação com N (MO), P e Ca, correlação negativa com Mg e B e uma situação errática quanto aos demais nutrientes. Confirmaram-se as conclusões da literatura de que a análise folhar em cana não oferece índices seguros para recomendação de adubação.

No ano 2002 foi determinada pela FZEA-USP, Pirassununga a resistência à penetração (penetrômetro de impacto) com os seguintes resultados das camadas mais densas comparadas com a mata intocada:

Unidade - kg f/ cm2........Entrelinha..........Linha...........Mata
camada mais densa..............5/25cm...........15/40cm.......20/25cm
resistência média...................87,6kg.............48,7kg.........48,6kg
resistência máxima................99,3kg.............53,8kg.........51,5kg


O resultado informa a compactação nas entrelinhas devida ao trafego de máquinas (pulverização e colheita), problema a ser considerado na renovação.

ADUBAÇÃO

A orientação geral da adubação seguiu as seguintes normas para os nutrientes:

Nitrogênio- Diante de controvérsias sobre o efeito do N em terras roxas, havendo corrente de opinião de que é desnecessário, optou-se por 100 kg / ha / ano, na forma de nitrato ou sulfato, aplicado superficialmente a lanço ou em filetes dos dois lados das linhas de plantas.

Fósforo- Diante da elevada capacidade de fixação da terra roxa, a julgar pelos teores encontrados após vários anos de adubação fosfatada (>2000 kg P2O5 /ha em 35 anos),
seguimos a técnica de "sítios de alto P", localizados no fundo do sulco de plantio (P2O5-160 kg /ha =22,4 g/ m linear) e, a cada 4 anos em risco de facão no centro das entrelinhas (P2O5-80 kg/ ha= 11,2 g /m linear), sempre na forma de multifosfato magnesiano adicionado de micro-elementos. Nos dois casos os sítios permaneceram indeformados, na ausência de qualquer cultivo mecânico, mostrando intensa formação de raízes ao redor. Essa orientação foi amparada pela falta de resposta a adubações fosfatadas durante o ciclo de 4/5 anos da cana, o que é explicável pela suficiência e eficiência do P aplicado em sítio no fundo do sulco inicial.

Potássio- Face ao inconclusivo aumento do teor de K no solo após adubações sucessivas, tivemos dúvidas em adotar dosagens amparadas nas análises de terra. Assim, procuramos repor as quantidades exportadas acrescidas de certa margem de segurança. As avaliações concluíram por 200 kg K2O por ha/ ano, na forma de KCl, aplicado junto com N, em formulações comerciais de relação N:K2O=1:2.

Cálcio- Estando ainda mal estudada a dinâmica do Ca na solução do solo e a respectiva compatibilização com o ritmo da absorção do K solúvel em água, decidimos aplicar Ca solúvel na forma de 1 t gesso a cada dois anos. O S, fornecido concomitantemente, repõe a retirada pelas colheitas.

Magnésio- O mesmo raciocínio feito para o Ca e os indícios de que a falta de Mg poderia ser a explicação para as áreas que se apresentaram mais amareladas na seca de 2000, única correlação identificada, nos levaram a aplicar anualmente 30 kg/ ha/ ano Mg, na forma de MgO adicionado à formulação, tendo em conta também restabelecer certo equilíbrio com as aplicações de Ca contido no gesso.

Boro- As análise de terra de 1997 e 98 indicaram baixo teor de B, o que nos levou a aplicar 15 kg/ ha de B uma única vês, em 1999, adicionado à formulação.

Demais micro-nutrientes- Somente foram fornecidos na adubação de fundo de sulco, como já mencionado.

TRATOS CULTURAIS

O controle de invasoras é feito à base de herbicidas, salvo o arrancamento de touceiras de Colonião logo após a colheita. A rotina atual é o uso de produtos de pré-emergência e controladores de plântulas e, quando necessário, um produto seletivo de pós-emergência tipo. Até o momento nenhum produto controlou a infestação de colonião, grama e tiririca.

O P.maximum deixado florescer e maturar forma um banco de sementes, em boa parte dormentes, que germinam ano após ano, mesmo após o período de atuação do herbicida, vindo a conviver com a cana, em que pese o sombreamento. Na renovação persistem as sementes dormentes, por maior que seja o empenho de erradicação. Trata-se de um problema ainda mal resolvido.

A grama Cynodon é igualmente tolerante aos produtos seletivos, persistindo ano pos ano, embora com vigor reduzido após o sombreamento. Nota-se que a propagação se reduz pela menor freqüência das operações de arraste, limitadas à sulcagem e à aplicação de P no risco. O melhor controle se faz com glifosato sobre a rebrota após carpa, havendo a dificuldade do produto não poder atingir as folhas verdes da cana.

A tiririca tem seu crescimento retardado pelo 2-4-D e pela sombra da cana, não prejudicando a cultura principal se pulverizada a tempo. Nota-se que sem revolvimento do solo as raízes e nódulos ficam superficiais, dando esperança de que venha a surgir um herbicida que alcance até o 4º. ou 5º. nódulo.

Os resíduos de cobertura provêm das folhas verdes e palmitos não queimados. Procuramos sempre queimar de madrugada, com fogo mais lento. Em dias frios úmidos e após chuva, os resíduos remanescentes são em volume satisfatório, podendo ser avaliados em mais de 4 t /ha., dando uma cobertura estimada em mais de 50% da área.Todavia se a queima coincide com noites quentes de baixa umidade, a quantidade de resíduos é limitada, o que também acontece quando a usina compradora se interessa por palmito longo para aumentar o volume de bagaço.

OBSERVAÇÕES PARALELAS

Em área vizinha em solo de alta densidade, procedeu-se a subsolagem a 40 cm na renovação de cana de ano deixando testemunha intocada. O 1º. corte não mostrou diferença, porem no 2º. corte constatou-se um beneficio da ordem de 10t/ ha, que, aos preços da época, era equivalente ao custo da operação.

Em outras áreas de terras similares, durante três anos, a renovação de cana de ano e meio foi precedida de plantação de Brachiaria brizantha-Marandú, idem Xaraés e B.ruzisensis, devidamente adubadas, objetivando o recobrimento do solo até a 1ª. queima e os benefícios previstos de melhoria da porosidade pela agregação promovida por raízes fasciculadas. O comportamento de cada uma, tanto isolada como consorciada com milho, foi devidamente anotado.

Em 90 dias de vegetação (2005) obteve-se em 18.900 kg de MS/ ha, inclusive raízes, com intensa reciclagem de nutrientes, principalmente N (167 kg/ ha) e K (209 kg/ ha). A decomposição verificada em um ano(2004) foi da ordem de 40% para o resíduo de relação C:N= 40:1. Em outra área de terra de transição, tendendo para LVA, bastante compacta, está sendo observada a evolução da porosidade com auxilio de penetrômetro de impacto, antes e depois da brachiaria, na solo seco durante a estiagem.

Temos ensaiado a produção de biomassa nas entrelinhas das soqueiras. Das espécies experimentadas as mais convenientes são o milho e a Crotalaria juncea, semeadas após 30/45 dias de rebrota da cana. Ambos são de crescimento rápido e podem ser abatidos mecanicamente por compressão,- pois partem-se ao dobrar-, o que é importante face às limitações do uso de herbicidas que possam afetar a cana.

As observações efetuados por 3 anos indicam a possibilidade de produzir em 60 dias até 7.500t/ ha MS (0,63% N- 1,5% K) no milho e 4.400 kg /ha MS na C. juncea, somente de plantas inteiras, sem contar as raízes, cuidando-se de adubar adicionalmente essas culturas semeadas em duas carreiras contínuas nas entrelinhas da cana, separadas de 40 cm. O resíduo da crotalária (varetas), 4 meses após ser abatida, mostrou conter 0,7% de N e uma relação C:N= 59:1

Não se notou até agora qualquer prejuízo pela competição do milho nas entrelinhas durante 60 dias, a julgar pela medição do diâmetro e altura dos colmos da cana. Nem tampouco se conhece o benefício que possa vir a trazer, uma vez que a proteção ocorre durante o sombreamento do solo pela própria cana, alem de ser limitado até a queima para o corte seguinte, o que é atenuado com a colheita tardia de variedades de ciclo mais logo. É certo que no caso da crotalária haveria o benefício adicional do N da fixação simbiótica. Essa técnica ainda depende de estudos e observações de longo prazo, embora a cobertura do solo por resíduos vegetais seja um preceito fundamental do sistema de plantio direto.

PRODUTIVIDADE

Comparamos as produtividades anuais e acumuladas com as chuvas dos respectivos anos agrícolas, imediatamente anteriores:

..Ano..........Produtiv.......Produtiv. média......Chuvas no
Cortes........ do ano.............até o ano...........ano agrícola
1996-1º*.....156,1*t/ha...........156,1t/ha.................1.777mm
1997-2º.......132,7...................144,4........................1.830
1998-3º.......123,2...................137,3........................2.423
1999-4º.........76,7(1)..............122,2........................2.251(1)
2000-5º.........96,0...................116,9........................1.282
2001-6º.........85,0...................111,6........................1.705
2002-7º.......101,0...................110,1........................1.574
2003-8º.........77,6(2)..............106,0........................1.158(2)
2004-9º.........81,0...................103,2........................1.331
2005-10º.......79,2...................100,8........................1.332
Médias ............-x-.....................-x-..........................1.618 (3)
2006-11º.......70 Est.

*Cana de 18 meses (1) Chuvas excessiva (1.200 mm) em Jan/Fev.(m=503 mm) afetando a insolação, a lixiviação e o encharcamento. -(2) Chuva escassa (320 mm) de Fev.a Junho (m=642 mm). -(3) Média de 24 anos

Nas culturas em geral as médias de produtividade são calculadas para toda a área, enquanto que, na cana é usual tomar por base somente a área colhida, o que foge da realidade.

A produtividade decenal verificada resulta na média de 91,6 t/ ha para a área total destinada à cana, incluindo-se um ano para renovação, resultado a ser analisado tendo em vista o custo atual da renovação.

Acreditamos que pela experiência desses 10 anos e pelos conhecimentos obtidos com observações paralelas, venhamos a estabelecer procedimentos de produção sustentável de cana colhida após queima, tanto sob aspecto agronômico como econômico.

Mogi Mirim/ SP, 5 de fevereiro de 2006
(ra)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
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