JULHO 19

As colheitas de cana-de-açúcar, café, citros e muitas outras frutíferas avançam nas regiões produtoras enquanto o frio e a estação seca preparam as plantas para as novas floradas e futuras produções.

 
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:: ALIMENTANDO UM MUNDO DE DEZ BILHÕES DE PESSOAS*
Dr. Norman Borlaug (2003)**
“Eu ouso prever que lá pelo ano 2010 haverá uma tremenda quantidade de grãos básicos arroz, milho, sorgo, soja e feijão a ser exportada para os mais diversos países do mundo, a qual terá sido produzida no cerrado”. “Eu jamais poderia imaginar que durante minha vida pudesse presenciar o desenvolvimento de uma tecnologia que iria converter essas grandes áreas de solo infertil e com boas chuvas, de uma vegetação de campo e arbustos para um solo agrícola altamente produtivo”. “Estou convencido de que o que está ocorrendo no Cerrado é um dos mais espetaculares eventos de desenvolvimento agrícola que se realizou no mundo nos últimos cem anos”. (1995)***
Excertos

O Cerrado Brasileiro
O potencial para expansão adicional da área de terra arável global é limitado na maior parte das regiões do mundo. Somente no Sul da África e na América do Sul existem grandes extensões inexploradas e somente parte dessas áreas poderiam eventualmente servir para a produção agrícola. Na Ásia super povoada, onde vivem mais da metade da população mundial, resta muito pouca terra não cultivada.

Trazer para produção agrícola as terras inexploradas potencialmente aráveis do mundo, apresenta desafios formidáveis. O cerrado brasileiro, ou savana ácida, é um bom caso a examinar. O cerrado é uma grande extensão de terra de campo plana ou levemente ondulada, com algumas áreas de arbustos e árvores raquíticas de um eco tipo de semi-climax induzido pelo fogo. Sua área total é de cerca de 205 milhões de ha, equivalente aproximadamente à área combinada da Espanha, Itália, França e Grã Bretanha. Cobre uma área geográfica desde a latitude 24º até 4º Sul a varia de elevação de 500 até 1.800 m, com uma precipitação uni-modal (Outubro a Março) variando de 900 a 1.800 mm por ano.

O cerrado central, com 175 milhões de ha em um bloco contínuo, forma o grosso das terras de savana. Aproximadamente 112 milhões de ha desse bloco são considerados potencialmente aráveis. A maior parte do restante tem um valor potencial para reflorestamento e para pastagens melhoradas para produção animal. Os solos dessa área são na maior parte variados tipos de barro a barro argilosos, latosolos profundos (oxisolos, ultisolos) com boas propriedades físicas, mas altamente lixiviados de nutrientes. São fortemente ácidos, têm elevados níveis de alumínio solúvel (e de manganês em certas áreas). A maior parte do fosfato está fixado e indisponível.

Até 50 anos atrás o cerrado era esparsamente habitado e considerado como sem valor para a agricultura. Algumas plantações eram feitas nas faixas aluviais beirando os córregos, as quais eram menos ácidas e onde havia um acúmulo de nutrientes. Adicionalmente, havia alguma produção de gado bovino, porém a vegetação natural de savana/arbustos (baixa digestibilidade e valor nutricional) resultava em uma produção de baixa capacidade de suporte.

Nos dias de hoje uma grandiosa revolução agrícola está ocorrendo no cerrado como resultado de longo processo de pesquisa e desenvolvimento. Durante os anos de 1930 a 1940, peças isoladas de informação experimental sobre solos e sobre germoplasma vegetal tolerante ao alumínio foram realizadas em várias faculdades de agronomia e em estações experimentais dos governos federal e estaduais (1). Ao final dos anos 1960 tentou-se produzir comercialmente em algumas áreas de cerrado enquanto iniciava-se a aplicação de corretivos do solo - calcário para corrigir a acidez e a toxidez do alumínio, combinados com fertilizantes NPK, enxofre, e micronutrientes. Desenvolveu-se uma nova geração de variedades de plantas comerciais (gramíneas forrageiras, arroz, soja, milhe e trigo). Infelizmente este primeiro grupo de variedades, embora tolerante à toxidez do alumínio, tinha baixa produtividade e outras deficiências, principalmente suscetibilidade a várias moléstias.

A criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária- EMBRAPA em 1973 constituiu um ímpeto significativo na pesquisa dirigida para o cerrado. Os cientistas da EMBRAPA iniciaram um programa sistemático de pesquisa interdisciplinar, integrando o conhecimento já existente e gerando novas informações e produtos da pesquisa. Grande parte da pesquisa sobre a fertilidade/ toxidade do solo e da pesquisa agronômica interdisciplinar foi localizada no Centro de Pesquisa Agropecuária do Cerrado - CPAC, localizado perto de Brasília, enquanto que a pesquisa sobre melhoramento das plantas com resistência a moléstias e insetos era realizada nos diversos centros da EMBRAPA especializados nas diferentes culturas.

No correr dos anos 1980, tanto a EMBRAPA como outros centros internacionais de pesquisa agrícola (notadamente o CIMMYT e CIAT) iniciaram uma colaboração intensa para desenvolver uma terceira geração de variedades de plantas comerciais combinando tolerância à toxidez do alumínio com alta produtividade, melhor resistência às moléstias primárias e melhor tipo agronômico. Existem boas variedades com tolerância ao alumínio no caso do arroz, milho, soja, trigo e diversas espécies de gramíneas para pasto, incluindo Pannicuns, pangola e capins nativos. Triticale é um interessante cereal desenvolvido pelo homem, tendo alto nível de tolerância ao alumínio. Todavia, até os dias de hoje, não foi extensamente utilizado no cerrado, seja para produção de forragem ou de grão.

Existem muitos desafios para a pesquisa na atual situação da produção comercial de agrícola no cerrado os quais ainda estão por enfrentar. Muitos avanços vêm sendo eitos pelas associações de produtores, tanto isoladamente como em associação com cientistas. Muito mais ainda está por ser feito e faz-se necessária pesquisa adicional, tanto das organizações públicas como do setor privado.

Há necessidade de pesquisa adicional para determinar recomendações exatas de fertilizantes para as diversas culturas nas diferentes áreas. Considerando que o plantio direto ou cultivo mínimo está em uso generalizado, pelo qual restolhos ou resíduos vegetais são deixados na superfície, é absolutamente necessário estabelecer melhores sistemas de rotação para minimizar a infecção foliar de moléstias resultantes de contaminação de inóculos originados dos resíduos das plantas da última ou penúltima safra.

Investimentos colossais vêm sendo feitos para desenvolver sistemas de transporte das regiões do cerrado até os portos de navegação oceânica. Rodovias, estradas de ferro e sistemas fluviais logo irão ligar grande parte do cerrado aos portos, reduzindo muito os custos de transporte, o qual tem sido um obstáculo importante para o pleno desenvolvimento econômico.

Se a tecnologia melhorada atualmente disponível fosse utilizada nos 20 milhões de ha de terra potencialmente arável no cerrado chuvoso seria possível aos produtores alcançar uma produtividade média de 3,2 t/ha com uma produção de 64 milhões de tons. A área irrigada poderia também ser aumentada em 10 vezes-para 5 milhões de ha-com uma produtividade média esperada de 6 t/ha, com uma produção total de 30 milhões de tons. A produção de carne poderia também ser aumentada em 4 vezes com melhoria das pastagens. No total, a produção de alimentos poderia ser triplicada, dos atuais 30 milhões tons para cerca de 100 milhões de tons, pela adoção generalizada da tecnologia melhorada ora disponível (Tabela 5).

A abertura do cerrado irá ajudar a garantir o ajuste no suprimento mundial de alimento para as próximas duas décadas se continuarmos a adotar uma política de estimular a produção. Eventualmente uma tecnologia similar à adotada no cerrado se estenderá aos llanos da Colômbia e da Venezuela, com possível esperança de chegar aos paises do centro e do sul da África, onde existem problemas semelhantes de solo.

Tabela 5. Produção Potencial de Alimento se a Tecnologia Disponível em 1995 for Adotada na Área de Cerrado já em Produção.

Uso da Terra
...................................................Área................Produção...............Produtividade
............................................Milhões de ha........Milhões de t.................t/ha/ano
Colheitas sob chuva...................20,0.....................3,2............................64
Colheitas irrigadas........................5,0.....................6,0 ...........................30
Carne de pasto...........................20,0.....................0,2 .............................4
Total............................................45,0......................................................98


Comentários Finais
30 anos atrás, no meu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, eu disse que a Revolução Verde havia conseguido um sucesso temporário na guerra do homem contra a fome, a qual, se inteiramente implementada, poderia prover alimento suficiente para a humanidade até o final do século 20. Isso se realizou. Mas eu também preveni que o sucesso da Revolução Verde poderia ser apenas efêmero, a menos que se contivesse a capacidade assustadora da reprodução humana.

Eu agora posso afirmar que o mundo já conta com tecnologia - quer disponível quer bem adiantada nos setores da pesquisa - para alimentar uma população de dez bilhões de pessoas. Podem-se conseguir melhorias de produtividade em toda a seqüência - no preparo do solo, uso da água, adubação, controle de invasoras e de pragas e na colheita. Tanto o melhoramento convencional das plantas como a pesquisa em biotecnologia serão necessárias para garantir que o melhoramento genético das culturas de alimentos continuem a manter passo suficiente para satisfazer as crescentes populações do mundo.

A dúvida mais pertinente hoje em dia é se os fazendeiros e pecuaristas terão permissão para utilizar esta nova tecnologia. Os extremistas do movimento ambiental nas nações ricas parecem estar fazendo tudo que podem para paralisar o progresso científico no seu desdobramento. Pequenos grupos vociferantes, anti-ciência e anti-tecnologia, muito eficientes e bem financiados, a cada ano estão retardando a aplicação da nova tecnologia, seja ela desenvolvida a partir da biotecnologia ou de métodos convencionais da ciência agrícola.

Somente ao redor de 4% da população das nações industrializadas (menos que 2% nos EUA) está diretamente engajada na agricultura. Com o suprimento de alimentos a baixo preço e com os preconceitos urbanos, não é de admirar que os consumidores não compreendam as complexidades de repetir a cada ano, na sua integridade, o suprimento mundial de alimento, além de se expandir ainda mais para atender os 80 milhões de pessoas adicionais que são somadas anualmente. Eu acredito que nós precisamos redirecionar esta “falha educacional” nas nações industriais urbanizadas tornando compulsório que os estudantes das escolas secundárias e universidades recebam cursos sobre biologia e ciência, bem como sobre uma política tecnológica.

Concluindo, permita-me deixar que vocês guardem este pensamento, tão eloqüentemente enunciado por André e Jean Mayer, dois nutricionistas norte-americanos, em um artigo, - Agricultura o Império Insular -, publicado em 1974 no Jornal Daedulus da Academia Americana de Artes e Ciências:

“Poucos cientistas acham que a agricultura seja a principal ou um modelo da ciência. Muitos, na verdade, nem consideram que seja mesmo uma ciência. Todavia, ela foi a primeira ciência - a mãe de todas as ciências; ela permanece a ciência que torna possível a vida humana; e é provável que, antes do final do século, o sucesso ou fracasso da ciência como um todo venha a ser julgado pelo sucesso ou fracasso da agricultura”.
_________________________
(*) Publicação da International Fertilizer Development Center- IFDC, Muscle Shoals-AL, EU. –
2003, 24 pág. - Tradução Fernando Penteado Cardoso.

(**) Pai da Revolução Verde-1968; Prêmio Nobel da Paz-1970; Medalha Presidencial da Liberdade (EU)- 1977; Medalha de Ouro do Congresso (EU)- 2006; Professor de Historia da Agricultura na Universidade Texas A&M (EU).

(***) Cartas a um de seus amigos no Brasil.

(1) Inclusive as pesquisas realizadas pelo IRI-International Research Institute (Irmãos Rockfeller)-Matão/SP (1954/64), demonstrando que as terras pobres de cerrado podiam produzir tanto quanto as terras novas de mata alta, desde que calcariados e bem adubados, mesmo sem esterco animal. (Nota do tradutor).


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