MARÇO 2019

Colheita da soja avança para o final e milho segunda safra consolida plantio. Chuvas e calor recuperam desempenho de cultivos perenes.

 
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:: Plantio direto e desenvolvimento sustentável
Bernardo van Raij - Engenheiro agrônomo, doutor em Ciência do Solo, consultor/pequisador Instituto Agronômico de Campinas / IAC, Campinas /SP - bvanraij@terra.com.br
O aumento da produção agrícola brasileira nas últimas décadas deveu-se, em grande parte, à viabilização da agricultura em solos de baixa fertilidade natural, através do uso de calcário e fertilizante, principalmente na região dos Cerrados do Brasil Central, mas também em solos empobrecidos do Sul e do Sudeste. Contudo, embora a calagem e a adubação tenham sido fundamentais para a elevação da produção agrícola, em sentido inverso, o insidioso processo da erosão desgastava os solos e até os destruía, reduzindo a produtividade, muitas vezes forçando a mudança de agricultura para pastagens ou até mesmo o abandono da terra.

Porém, nada se compara com o que vem acontecendo, no controle da erosão, com o sistema de manejo do solo e sua cobertura, conhecido por plantio direto. O plantio direto vem sendo adotado pelos produtores há duas décadas, com um crescimento de área de caráter exponencial, chegando atualmente em 20 milhões de hectares. Para compreender o que isso significa do ponto de vista do desenvolvimento sustentável, é preciso compreender as funções ecológicas do solo, como elas são afetadas pela erosão, e como o plantio direto reverte o processo de degradação.

O solo é o mais valioso recurso natural para a agricultura, o sustentáculo de grande parte da biosfera terrestre. O que caracteriza o solo e o diferencial do materia1 não consolidado, que muitas vezes está por baixo, é a presença de organismos, que produzem e degradam matéria orgânica, promovendo sua transformação. Microrganisrnos provocam a mineralização da matéria orgânica decorrente de restos vegetais e de outros organismos. Nesse processo, nem toda a matéria orgânica é mineralizada. Uma parte mais resistente permanece, como húmus ou matéria orgânica do solo, conferindo ao solo propriedades notáveis de agregação, porosidade e retenção de água e nutrientes. Isso permite o desenvolvimento das plan tas, que retiram do solo, através das raízes, a água e os nutrientes minerais.

O solo ocupa um papel central na ciclagem dos nutrientes, com destaque para o carbono e o nitrogênio, não existentes em rochas, mas incorporados ao solo. Os solos do mundo contêm mais carbono retido do que a atmosfera e a biosfera. O cultivo dos solos 1eva a grandes perdas de matéria orgânica e liberação de gás carbônico para a atmosfera, portanto contribuindo para o efeito estufa. Curiosamente, é assunto pouco lembrado quando são listadas as principais fontes que vêm lançando gás carbônico para a atmosfera e causando o efeito estufa, muito embora se trate de carbono anteriormente retirado atmosfera.

Papel ecológico

Há, ainda, outro pa pel ecológico fundamental do solo, representado por sua participação no ciclo da água. Em um solo estável, com vegetação natural, existe normalmente um grande número de espécies vegetais e animais e de microrganismos, vivendo em equilíbrio. Em tais sistemas, o solo permanece coberto o tempo todo, a taxa de infiltração é elevada e a água penetra no solo com facilidade.

O solo tem capacidade de reter e armazenar a água por tempos bastante longos, o que permite a sobrevivência das plantas mesmo em períodos de longas estiagens. O exces so hídrico, que ocorre quando o teor de água no solo atinge a chamada capacidade de campo, infiltra e pode atingir o aqüífero sub terrâneo. Os aqüíferos, por sua vez, forne cem a água das nascentes, que formam os córregos e os rios. Parte de toda a água transforma-se em vapor, pela evapotranspiração, e retorna à atmosfera, fechando, assim, o ciclo da água.

Arar sempre foi um passo importante para a agricultura, principalmente para aquelas culturas de ciclo curto, ou "anuais". Acreditava se que era preciso deixar a terra "fofa", para que as raízes das plantas recém germinadas pudessem penetrar no solo sem dificuldade. A aração também tinha o mérito de controlar as "más ervas" ou "plantas daninhas". Uma vez estabelecida a cultura, era importante controlar o mato, deixar a cultura "no limpo" para evitar a competição por água e nutrientes. Ou seja, só as plantas cultivadas deveriam ocupar a área; todas as outras iriam competir por água e nutrientes e deveriam ser eliminadas.

Com o tempo, essa forma de manejo se revelou inadequada, especialmente após a invenção dos herbicidas que vieram a apresentar uma alternativa para controle das invasoras. " Solo descoberto e exposto, em ter~ com declive, é solo vulnerável , quanto se escreveu, com embasamento teórico, sobre o poder desagregador da gota de água. Mas aquelas mesmas gotas também agridem e levantam as partículas de solo. E muitas gotas vêm depois, e já não se pode reconhecê las reunidas em deflúvios, que escorrem declive abaixo. Quando há erosão, a água lamacenta carrega a melhor parte do solo, a fração mais fina, chamada de argila, a que mais contém matéria orgânica e nutrientes. Os pesquisadores avaliaram que, no Brasil, as perdas de solos podem atingir dezenas de toneladas de terra por hectare em um único ano.

Perdas com a erosão

A erosão carrega uma parte boa do solo, com prejuízo para a produtividade pela degradação do solo, que perde parte da camada superficial mais rica pelo arraste de material pela erosão. A erosão pode, também, destruir a superfície do solo, formando sulcos que dificultam ou impedem o trânsito de máquinas. Esses sulcos adquirem, em alguns solos, dimensões enormes, formando as chamadas voçorocas.

A terra removida do solo causa assoreamento de rios, lagos ou reservatórios; a lama reduz o espaço para a água, agravando as enchentes. Os reservatórios passam a ter a capacidade de água reduzida e o tratamento de água para suprir as cidades toma se mais difícil e custoso. Plantar sem arar já era estudado há muito tempo pelos pesquisadores, ainda na primeira metade do século passado, mas os resultados experimentais não entusiasmaram e a viabilidade de realizar tal tipo de plantio não avançou. Também não existiam as máquinas e os herbicidas atuais.

O plantio direto no Brasil surgiu há cerca de 30 anos por conta de produtores do Paraná, que buscavam simplesmente a sustentabilidade de suas propriedades, já que a erosão ameaçava inviabilizar a produção agrícola. O processo que se seguiu, com a adoção crescente pelos produtores, a adesão de técnicos, pesquisadores, produtores de máquinas e insumos e outros, é por si só uma notável história da agricultura brasileira, que tem sido difundida e apropriada por um número sempre crescente de entusiastas. O plantio direto vem recentemente sendo chamado de agricultura conservacionista. A essência do processo é manter o solo sempre coberto com vegetação, viva ou morta; nunca revolver o solo e praticar a rotação de culturas.


Impacto ambiental do plantio direto

O plantio direto tem vários impactos ambientais positivos, devolvendo ao solo algumas de suas funções ecológicas, principalmente a de ciclagem de água. O efeito mais procurado, o controle da erosão, traz conseqüências benéficas ao solo, como a redução das perdas de terra e o assoreamento dos corpos d"água superficiais.
A erosão é reduzida pela maior infiltração de água, em vez de escorrimento pelo terreno. Isso tem várias conseqüências. Pela infiltração de água e menores perdas no deflúvio, as enchentes são menos acentuadas e, pelo maior suprimento de água aos aqüíferos subterrâneos, o suprimento de água durante os períodos de seca é maior. Dessa forma, o solo tem devolvido, em grande parte, o que havia perdido pelo cultivo: a sua função ecológica de ciclagem de água.

Outro efeito importante é o aumento da matéria orgânica do solo, revertendo a contínua queda que se verifica em solos sob cultivo convencional. Isso se explica pelo não revolvimento do solo por cultivos com erado e grade, o que reduz a oxidação da matéria orgânica. Dessa forma, o solo acumula mais carbono e nitrogênio, restabelecendo, assim, pelo menos em parte, o que havia sido perdido dos ciclos do carbono e o nitrogênio. Esse efeito ocorre não só em áreas suscetíveis à erosão, mas mesmo em solos que não apresentam esse problema. O não revolvimento do solo tem favorecido a biodiversidade do solo, o que tem contribuído para melhorar a porosidade e alguma proliferação de inimigos naturais de pragas doenças.


Desenvolvimento sustentável

A prática do plantio direto tem um notável efeito em garantir a produção agrícola, reduzindo a erosão e a poluição dos recursos hídricos, influindo de forma muito favorável nos ciclos da água, do carbono e do nitrogênio e até mesmo contribuindo para a biodiversidade do solo. Contudo, isso não é suficiente, já que o conceito de desenvolvimento sustentável deve ser visto não apenas na área em que se localiza o plantio direto, mas também avaliado na perspectiva dos efeitos que a agricultura praticada e o manejo das áreas não cultivadas das propriedades têm sobre o meio ambiente e sobre o homem. Cabe, então, analisar como os produtores que utilizam o plantio direto podem ser vistos dentro dos conceitos do desenvolvimento sustentável. Antes, porém, é preciso conceituar o que se entende por desenvolvimento sustentável.

O relatório da ONU da Comissão Brundtland, "Nosso Futuro Comum", de 1987, definiu o desenvolvimento sustentável como aquele que "atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades". Outro marco fundamental é a Agenda 21, aprovada na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92. A Agenda 21 é uma espécie de consolidação de diversos relatórios, tratados, protocolos e outros documentos elaborados durante décadas na esfera da ONU, começando em 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Trata se de documento muito rico em informações, diretrizes e recomendações, podendo ser considerado um programa de ação para implementar o desenvolvimento sustentável, que deve conciliar o resultado econômico, a preservação ambiental e o interesse social.

Dessa forma, o produtor praticante do plantio direto, que busca o desenvolvimento sustentável, deve cumprir com outros requisitos, que são a preservação da flora e da fauna, a redução do gasto de energia e do uso de recursos não renováveis, a redução da contaminação ambiental. Um dos pontos críticos da agricultura está na ocupação da terra. Áreas de reserva florestal legal e de proteção permanente não devem ser ocupadas. Essas áreas são consideradas importantes para proteger os recursos hídricos e a biodiversidade.


Sustentabilidade do sistema

O plantio direto utiliza menos energia que o p1antio convencional, pela redução das operações de cultivo do solo, estando, portanto, na direção certa no que tange à sustentabilidade. Fertilizantes são produtos essenciais à agricultura, utilizados em grandes quantidades no sistema de plantio direto. Há dois aspectos a considerar: o uso de recursos naturais não renováveis e a poluição ambiental. No caso dos recursos naturais não renováveis, os principais são fosfatos, retirados de jazidas que têm limite de exploração, embora distante; e adubos nitrogenados, fabricados pela fixação do nitrogênio atmosférico, combinado, com o hidrogênio extraído principalmente do gás natural, também um recurso não renovável.

O que pouco se comer a enorme economia que a principal cultura do plantio direto, a soja, traz, por fixar o nitrogênio diretamente do ar. A quantidade de nitrogênio introduzida pela soja nos sistemas de produção do Brasil é duas vezes maior do que todo o nitrogênio contido e adubos minerais. Quanto à poluição na agricultura, em qualquer sistema de produção, os principais problemas são de nitrato em água subterrânea e nitrato e fosfato em águas superficiais.

Em nenhum desses casos, espera se grandes problemas nas grandes áreas de plantio direto, mas podem ocorrer no caso de plantações de milho de alta produtividade e em regiões que têm produção intensiva de gado leiteiro ou de suínos, utilizando os dejetos no plantio direto. Para o enquadramento no conceito de desenvolvimento sustentável. Fertilizantes, minerais ou orgânicos não devem ser aplicados acima das quantidades necessárias, para se evitar desperdício e poluição. A proteção de plantas é outro problema complicado, pelo risco que os pesticidas usados apresentam para os aplicadores e o meio ambiente, além da possível contaminação de produtos agrícolas.

O caminho da sustentabilidade passa por evitar aplicações pelo calendário e implementar medidas que reduzam as pragas na origem, como rotação de culturas e manejo de hábitat de inimigos naturais, diagnose de problemas, decisão sobre o controle de pragas usando o manejo integrado de pragas escolha de produtos menos tóxicos e aplicação correta, que evite a deriva e contaminação das áreas florestais e cursos d"água.


Somente esses casos já dão uma, idéia da dificuldade de se poder alegar a adesão ao desenvolvimento sustentável. Pelo que se percebe, nos locais de produção, poucos produtores qualificariam totalmente. Pior: muitos produtores estão confiando demais no plantio direto para o controle de erosão, eliminando os terraços antes da melhoria da permeabilidade e da consolidação da camada de resíduos, com o que já se observa escorrimento de água, embora limpa, sobre o terreno, com o que se perde parte da função do solo no ciclo da água, além do arraste de pesticidas para os cursos d"água.
(ra)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
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