MARÇO 2019

Colheita da soja avança para o final e milho segunda safra consolida plantio. Chuvas e calor recuperam desempenho de cultivos perenes.

 
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:: Ambiente, Plantio Direto e Agronegócio
F.Cardoso - Conferencia de Abertura no X Encontro da Federação do PDP
X ENCONTRO NACIONAL DO PLANTIO DIRETO NA PALHA
8/11 AGOSTO 2006 - UBERABA/ MG

Conferência de abertura

O Sistema Plantio Direto, a Sustentabilidade Ambiental e o Agronegócio

Fernando Penteado Cardoso*

O ambiente

Ambiente é o conjunto de fatores exteriores que condicionam a vida e o comportamento dos seres vivos. No contexto do ser humano os fatores são de duas ordens, dentre outros:

-físicos - o ar, a água, o clima, a geografia e o alimento;

-não físicos - as conjunturas sociais, políticas e econômicas.

Os fatores ambientais físicos devem ser ajustados às necessidades e às conveniências humanas. Uma vez ajustados devem ser preservados, tornando-se permanentes. Não tem sentido tornar sustentáveis os ambientes antagônicos ao bem estar da vida humana.

Também não tem sentido aceitar que a atividade humana resulte em fatores desfavoráveis, contrários aos interesses do homem, seja por desconhecimento, seja por descaso, dando prioridade a vantagens imediatas com desprezo de desvantagens futuras.

Quando os ambientes são competitivos entre a vida do homem e a dos animais, deve prevalecer a primeira em decorrência dos direitos da própria criação.

Com relação ao fator físico alimento, imprescindível à vida, o ambiente deve ser favorável à sua produção. Aí pesa o clima em primeiro lugar e o solo logo a seguir. O clima independe da atividade humana, salvo exceções controversas. O solo, muito pelo contrário, pode ser alterado de acordo com o interesse do homem.

Não tem sentido preservar um ambiente desfavorável do solo. Esse princípio é aceito e posto em prática, a exemplo dos diques na Holanda e nas margens do Mississipi, dos patamares nas encostas por toda a Ásia, da elevação da fertilidade como acontece no cerrado do Brasil. São exemplos de alteração do ambiente, antepondo-se à sua preservação na condição original.

Todavia, uma vez melhorado o ambiente, como no caso do solo, é de interesse humano que o benefício perdure, se estabilize, tornando-se sustentável.

A planta pode medrar, se desenvolver e dar colheitas se contar com luz, calor, água e nutrientes, a exemplo da hidroponía. O solo se torna fundamental ao armazenar água e nutrientes cedendo-os gradativamente às plantas, bem como ao dar suporte às plantas de grande porte.

Para que o solo exerça as funções de armazenador-supridor de água e de nutrientes, bem como de suporte para as grandes plantas, deve apresentar propriedades físicas e químicas adequadas. Algumas decorrem das próprias qualidades originais do solo, sem interferência humana, outras são promovidas intencionalmente pelo homem.

Ao consumir o estoque original de nutrientes das terras ricas, ao trazer de fora nutrientes deficientes nas terras pobres, ao proporcionar água quando insuficiente, o homem está alterando, em seu benefício, o ambiente natural do solo.

Uma vez alcançado o benefício, é de interesse preservá- lo, evitando que se deteriore por força dos novos fatores introduzidos no sistema, sejam os danos das águas excedentes, as eventuais sobras de nutrientes e defensivos, as poeiras disseminando pragas e, principalmente, a perda da fertilidade pelo esgotamento e pelas alterações da superfície.

Dentre as tecnologias em uso para a persistência do solo fértil, dando-lhe sustentabilidade, está o plantio direto, que não passa da reprodução de um processo da natureza no universo das plantas, qual seja a deposição continuada de partes vegetais sobre a superfície, onde elas se decompõem originando húmus e reciclando nutrientes.

A denominação de Plantio Direto na Palha indica a importância da renovação contínua da camada de resíduos, -ditos palha-, condição si ne qua non do sistema.

O Estado da Arte do Plantio Direto
O Projeto Rally da Safra 2006, realizado nos meses de fevereiro e março do corrente ano, - com apoio da Agrisus -, cobriu 233 municípios em 13 estados para identificar o Estado da Arte do plantio Direto.
Foram visitadas 977 lavouras de soja, sorteadas ao acaso, distribuídas pelas quatro regiões climáticas como definidas no Relatório do Rally 2004. Foram visitadas também 281 lavouras de milho, que não puderam ser analisadas por estarem com colheita adiantada confundindo os resíduos. Além das visitas, foram respondidos 1371 questionários por ocasião das 45 reuniões realizadas, com várias perguntas relacionadas ao sistema de plantio direto e à integração lavoura-pecuária.
A exemplo do sistema adotado no Rally 2004, os dados coligidos foram analisados em função de 4 regiões climáticas com condições diferenciadas no inverno:

1ª. Região de inverno frio e chuvoso, - RS, SC e sul do PR,
2ª. Região de inverno incerto, ora quente ora frio, com chuvas, -restante do PR, sul de MS e sudoeste de SP.
3ª. Região de inverno quente com pouca chuva, -norte de MS, MT, RO, restante de SP, sudoeste de GO, triangulo MG.
4ª. Região de inverno quente e seco, -restante de GO, TO, sul do PA, oeste da BA, sudoeste do PI e MA.
As áreas em soja, bem como as proporções encontradas nas observações in loco, podem assim ser resumidas:
....................Milhões ha Soja....%Sob PD .....%Boa cob.
Região 1................ 5,4 ................. 99%.................97%
Região 2 ................5,3 ..................78%.................51%
Região 3 ................8,3 ..................76%.................27%
Região 4 ................3,0 ..................51%.................17%
Brasil.....................22,0...................77%.................48%
Essas proporções resultam em áreas presumidas de 5 milhões de há sem PD e de 6 milhões de há de PD a ser melhorado pelo aumento de resíduos, na cultura da soja.
Outras informações de interesse devem ser analisadas:
R.1 - As 160 visitas revelaram resíduos predominando trigo e aveia, seguidos de pousío (resíduo variado indefinido).
As 334 respostas a questionários informam que 80% de propriedades têm menos de mil há, 99% adotando o PD, sendo 83% há mais de 10 anos, que 19% já empregaram gesso e que cerca de 49% se dedicam à pecuária.
R.2 - As 177 visitas mostraram cobertura na maioria com resíduos sortidos (pousío), seguidos do milho e do trigo/ aveia indicadores do tipo de safrinha. Seis pontos exibindo restos de gramíneas sugerem pastoreio anterior.

Os 278 questionários mostram 73% de fazendas menores que mil há e 5% acima de 5.000 há; dos 97% que adotam o PD, 54% indicam acima de 10 anos; 66% já usaram gesso e 46% têm pastagens.
R.3 - Os 363 pontos observados revelaram milheto, seguido de pousío, milho e algodão. Sete pontos com sobras de gramíneas sugerem pastoreio antes da soja.
Foram respondidos 546 questionários indicando 44% de unidades com menos de mil há e já 14% acima de 5.000 há. O PD é adotado por 97% das respostas, sendo 39% há mais de 10 anos. Já usaram gesso 46% e 50% têm pastagem.
R.4 - Foram feitas 240 visitas que mostraram resíduos na maioria de milheto, seguido de pousío, milho e algodão indicadores de rotação anterior.
Cerca de 200 respostas a questionários informam 42% das propriedades com menos de mil há e 8% acima de 5.000. Com PD 89%, sendo 23% acima de 10 anos. Já empregaram gesso 63% e 54 % tem pastagem.
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As respostas aos questionários sugerem um público tecnificado, diverso da média dos produtores visitados: acima de 95% informam adotar o PD, enquanto as visitas indicam um pouco menos, sejam 77%. Praticamente todas admitem que o PD é atenuante da estiagem.
Analisando visitas e questionários, os resultados mostram que urge convencer os produtores de 25% da área de soja a iniciarem uma agricultura conservacionista e, aos que já a adotam, cerca de 30% de suas áreas deve ser aperfeiçoada quanto à produção de resíduos para alcançar uma cobertura morta acima de 40%.

A maior dificuldade está na Região 4 onde o regime pluvial não propicia o segundo plantio dito safrinha. Para lá, ao que tudo indica, urge aperfeiçoar o sistema de sobre-semeio com uso de semente recoberta para melhorar a sobrevivência das plântulas recém germinadas. Cabe aos órgãos de pesquisa avaliarem o problema e desenvolverem tecnologias para resolvê- lo.

Generalizando, como já se disse antes: “é imperioso aumentar o grau de conhecimento para podermos maximizar os benefícios advindos do plantio direto”. Para tanto, é preciso desenvolver tecnologias baseadas na pesquisa agronômica.

Se a freqüência aos encontros e congressos ajuda a firmar convicções e a aperfeiçoar os procedimentos, a experiência da extensão rural mostra que um programa de demonstrações e dias de campo é o melhor sistema para motivar a adoção do PD por aqueles que ainda não o fazem.

Uma parceria entre os órgãos do governo e as empresas de insumos e máquinas poderia vir a convencer os 25% dos produtores ainda relutantes a adotarem o PD como o melhor sistema até agora descoberto para melhorar e conservar o solo, assegurando uma fertilidade crescente e estável, fundamento de uma agricultura sustentável.

Integração com o agronegócio

O agro-negócio compreende um conjunto de atividades mineradoras, industriais, comerciais e financeiras que precede a produção agrícola, fornecendo-lhe máquinas, insumos vários, transporte e crédito. Seguem-se as atividades rurais, sejam agrícolas ou pecuárias, que promovem basicamente a fotossíntese, da qual resultam os variados produtos vegetais e animais. Por último vem a industrialização desses produtos, a embalagem, o transporte e a distribuição e venda, sejam no país ou para o exterior.

O conjunto representa pouco acima de meio trilhão de reais, sejam 28% do Produto Interno Bruto - PIB do país, envolvendo tanto capitais como mão de obra, que formam um todo altamente condicionante da vida em sociedade, sendo por isso de elevado interesse social.

O aumento contínuo da população requer o acréscimo das atividades do agronegócio para criar trabalho e renda aos novos participantes da sociedade. No centro dessas atividades está o fenômeno até hoje não reproduzido pelo gênio humano. Refiro-me à fotossíntese, captando energia solar, fissionando moléculas de água, para, em conjunto com o enzima rubisco, sintetizá- las com gás carbônico e oxigênio dando origem aos açucares primários, base energética de todos os produtos vegetais.

O fenômeno, um mistério da vida, requer condições favoráveis para o bom desempenho vegetal. Este, por sua vez, se baseia na fertilidade do solo, que pode ser melhorada e sustentada pelo plantio direto. Na seqüência dessas atividades, no coração do processo da vida, na alma da própria existência está um composto verde, com núcleo de magnésio, a clorofila, responsável pela fotossíntese impulsionada pela energia solar.

O plantio direto toma parte, ainda que indiretamente, na atividade vegetal, na fotossíntese, ou seja na produção agrícola. Torna-se, assim, parte integrante do agro-negócio.

Ao rever esses elos da cadeia da vida vegetal e animal, devemos meditar sobre a responsabilidade das pessoas envolvidas no agronegócio, -com destaque para os que estão dentro da porteira-, em prover alimento, fibra e energia para os oito bilhões de seres humanos previstos para meados deste século.

Muito obrigado.

*Engenheiro Agrônomo Sênior, fundador e ex-presidente da Manah S.A.
Atual Presidente da Fundação Agrisus- Agricultura Sustentável







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