JANEIRO 2019

Soja e outras plantas de verão em pleno crescimento.
Citros, café e cana de açúcar enfrentando limitações do clima.

 
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:: OS PRODUTORES PODEM ALIMENTAR O MUNDO
Dr. Norman Borlaug - Secretaria
OS PRODUTORES PODEM ALIMENTAR O MUNDO

Melhores sementes e fertilizantes, não mitos românticos,
permitirão que assim o façam.

Por NORMAN E. BORLAUG*

No inicio deste mês, em L"Áquila, Itália, uma pequena cidade devastada por um terremoto, os lideres dos paises G-8 aprovaram uma verba de 20 milhões de dólares para ser usada durante três anos como auxilio para investimento rural que ajudará pequenos produtores de escassos recursos a adquirir melhores sementes e fertilizantes, bem como a auxiliar nações pobres a se alimentarem. Para aqueles que, como nós, passam suas vidas trabalhando pela agricultura, o enfoque na produção de alimentos versus distribuí-los é um passo gigantesco na direção certa.

Providos das ferramentas apropriadas, os produtores têm demonstrado uma habilidade excepcional, para alimentarem a si próprios e a terceiros, bem como para dar partida no motor econômico capaz de reverter o ciclo crônico da pobreza. E o afastamento da pobreza oferece ao mesmo tempo uma chance de maior estabilidade política em seus paises.

Mas ao mesmo tempo em que a terra tremia sob a comunidade italiana de L"Áquila, assim também sacudiu-se o panorama político em outras partes do mundo, criando dúvidas infundadas sobre as ferramentas agrícolas criadas através da ciência moderna, a exemplo do milho bio-tecnificado em certas partes da Europa.Mesmo aqui em casa (EUA), alguns elementos da cultura popular romantizam os métodos antiquados e ineficientes de produção, evitando o uso de fertilizantes e defensivos, argumentando que os EUA deveriam reverter e produzir somente alimentos orgânicos locais. As pessoas podem comprar alimentos orgânicos se desejarem e tiverem poder aquisitivo para tal, mas não às custas da fome no mundo – 25.000 pessoas morrem de fome a cada dia.

Infelizmente, essas distrações nos tolheram chegar ao principal objetivo. Consideremos que a atual produtividade agrícola levou 10.000 anos para alcançar cerca de seis bilhões de toneladas brutas de alimento por ano. Hoje, perto de 7 bilhões de pessoas consomem por ano quase a totalidade desse volume estocado. Analisando o fator da prosperidade crescente das pessoas, ao lado de perto de três bilhões de novas bocas pelo ano 2050, a gente rapidamente pode perceber que o mais elementar cálculo sugere que dentro das próximas quatro décadas os produtores do mundo terão que dobrar sua produção.

Muito provavelmente eles precisarão atingir esse feito em uma área que vem se encolhendo e frente a exigências ambientais causadas pela mudança climática. De fato, este mês a Oxfam publicou um estudo concluindo que os efeitos múltiplos da mudança climática poderiam “reverter todo o trabalho de 50 anos para extinguir a pobreza” resultando na “maior tragédia humana deste século”.

Nesta época de necessidade crítica, o epicentro de nosso trabalho coletivo deveria se concentrar em conseguir investimentos contínuos, tanto públicos como privados,em novas tecnologias para uma produção agrícola eficiente. Investimentos como os que foram anunciados pelos líderes do G8 muito provavelmente iriam ajudar a colocar as ferramentas conhecidas, -tais como fertilizantes e sementes híbridas que por décadas vem sendo usadas no mundo desenvolvido-, nas mãos dos pequenos produtores de locais remotos como da África com potencial para impacto comprovado e conferido.

Esse investimento não seria destinado para incrementar novas e inéditas descobertas, tais como sementes de variedades tolerantes à seca, resistentes a insetos ou mais produtivas, que trazem avanços ainda mais rápidos. Para realizar isso, os governos precisam tomar decisões sobre o acesso a novas tecnologias, tais como organismos geneticamente modificados- com base na ciência e não em tópicos políticos adicionais. A liberdade de mercado irá estimular investimentos continuados, inovações e novos desenvolvimentos pelas instituições públicas de pesquisa, empresas privadas e criativas parcerias publico/privadas.

Já podemos ver o valor destes investimentos em andamento, simplesmente verificando os ganhos acima de dois dígitos na produtividade do milho e da soja em grande parte do mundo desenvolvido. Nos EUA, entre 19987 e 2007, a produtividade do milho aumentou em mais de 40% a da soja perto de 30%, enquanto que o trigo ficou para trás, com aumento de apenas 19% no mesmo período. A falta de investimentos significativos no arroz e trigo, dois dos mais importantes alimentos básicos necessários para alimentar o mundo em crescimento, é infeliz e de curta visão. Tal fato manteve a produtividade desses dois alimentos básicos nos mesmos níveis relativos encontrados no final dos anos 1960, e próximos aos da Revolução Verde que ajudou o México e a Índia a passarem de famintos importadores líquidos de grãos para exportadores.

Neste ponto, também, o terreno parece estar vagarosamente se alterando na direção certa, através de recentes investimentos privados para trigo e parcerias publico/privadas em milho, para que a África readquira uma posição no mercado. Estes investimentos e colaborações são críticos em nosso questionamento para que se alcance o tão necessário ganho em produtividade no arroz e no trigo, beneficiando os produtores de todo o mundo-e, no final, de todos nós que dependemos deles para produzirem nosso alimento diário.

Dentro da história, uma coisa é certa: a Civilização, como a conhecemos, não poderia ter evoluído, nem poderia sobreviver, sem um suprimento adequado de alimento. Da mesma forma, a civilização que nossos filhos e as futuras gerações irão encontrar não evoluirá sem acelerar o passo para o investimento e a inovação da produção da agricultura.
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*Dr. Borlaug, um professor da Universidade Texas A&M, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1970 por sua contribuição para o suprimento de alimento para o mundo.

(Fonte: Wall Street Journal, NY, 30/08/2009)



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