MARÇO 2019

Colheita da soja avança para o final e milho segunda safra consolida plantio. Chuvas e calor recuperam desempenho de cultivos perenes.

 
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:: HOMENAGEM A NORMAN BORLAUG
Noel Vietmeyer - Autor da biografia “Borlaug-The mild mannered Maverick who fed a billion people”
Um dia antes deste livro (**) ir para o prelo, Norman Borlaug morreu. Depois de mais que uma década avaliando o homem, bem como suas contribuições, é com tristeza que submeto estes últimos pensamentos.
A vida de Norman Borlaug é admirável pela suas dimensões incalculáveis.

Mais que um homem da paz, ele foi um homem do povo. Todos eram seus amigos pela sua atitude franca e direta de relacionamento. Seu estilo e personalidade refletiam suas características físicas – magro, ativo, sem empáfia e despretensioso. As pessoas não somente o aceitavam, mas criavam laços com ele.

Embora fosse um homem encantador, ele também era um feroz e impiedoso Guerreiro contra a Fome. Seu campo era a ciência da ação, não a ciência acadêmica. Nos campos de trigo, sua intensidade era tamanha que as pessoas se animavam apenas assistindo ao seu trabalho.

Ele abraçava o ditado de que um pouco de ação é melhor que muita discussão. Ao selecionar o trigo ele era um árbitro que, com uma imparcialidade profissional, condenava milhões de plantas sem pensar duas vezes. Ele sabia que os genes eram tão imprevisíveis quanto um relâmpago fugaz e que podem levar tanto ao sucesso como ao desespero.

Ele era um mestre na administração do caos, com uma capacidade inata de superar a ansiedade. Embora frequentemente fosse tratado como um herético no céu, ele nunca se ofendia, nunca abandonava suas convicções e raramente perdia a compostura. Quando parecia que o céu estava desabando, ele continuava explorando os mistérios do mundo do trigo com uma intensidade natural . . . aguardando que aquele gene certo emergisse como um peixe no lago.

Ele era uma alma invulgar e especial que não somente aceitava o prazo de anos, mas se concentrava no presente enquanto mantinha os olhos no futuro. Ele costumava se chamar de um jogador de meio campo e sua grande habilidade era compreender a defesa para localizar o caminho que chegasse até o gol.

Ele tinha coragem e estava disposto e se arriscar para fazer o que era preciso, não importando o tamanho do risco, nem se tinha seguidores. Nesse sentido, ele nunca teve medo de tropeçar e de ser considerado um tolo.

Ele não era um homem de palavras inspiradoras, tinha apenas trigos inspiradores. Mas o trigo falou muito em seu nome. Ele nunca foi o tipo de pessoa que olhava para trás; estava sempre ocupado em correr a frente sem perder tempo com futilidades.

O único fardo que nunca carregou foi o fardo de grandes riquezas. Ele trabalhou sua vida inteira sem ganhos pessoais e sentia-se contente, senão ansioso, de ver os outros colhendo os louros.

Enquanto muitos sonhavam e perdiam tempo, ele provava seu valor com ações. Ele decidiu lutar contra a fome em vez de escrever a respeito dela. E ele escolheu lutar de frente, com todas as suas forças, nas regiões que mais precisavam de alimento. Além disso, ele era um completo Guerreiro contra a Fome – tinha sempre recursos para obter toda a munição necessária.

Na era dos especialistas, ele mostrava a necessidade vital de generalistas. Nenhuma combinação de especialistas poderia realizar o que ele conseguiu. Seu grande dom foi de compartilhar sua exuberância e convicção. Geralmente seu ânimo estava tão alto quanto o termômetro no Deserto de Sonora na época da colheita.

Ele criou um extraordinário esprit de corps entre seus associados, –muitos deles jovens desamparados-. Eles confiavam uns nos outros, e isso foi a chave do sucesso que alcançaram. Ele nos ensinou o que fazer quando regras dogmáticas contrariavam necessidades humanitárias. “Lute” ele sempre dizia; “Lute, lute, lute!”.

Ele admirava trigais que havia criado ocupando espaços até o horizonte, mas ele nunca se vangloriava. Ele elevou a produtividade e níveis astronômicos, mas acreditava que isso não passava de seu trabalho e sempre se sentia insatisfeito.

Seu último legado era menos científico e se concentrava mais em sua capacidade de atingir os produtores e de incentivá-los à ação. Ele alimentou os famintos, mas também criou o ambiente adequado para um sólido setor privado rural. Cada semente de Borlaug enriqueceu o produtor e foi sua própria fonte de estímulo. Desse modo, deu a mão a milhões; sem recusá-la a ninguém.

Ele mostrou que um cientista consciencioso e sem compromissos é capaz de resolver problemas que confundem os ativistas com suas agendas rígidas. Enquanto muitos ficavam presos a suas visões sectárias do passado, ele estava descobrindo novos caminhos e seguindo por eles diretamente para o futuro. Ele era um explorador de roteiros para a Paz e a Fartura.

Quando ele teve que mudar o porte do principal cereal do mundo, abraçou esse desafio sem precedentes. E durante décadas, ele e o trigo estavam envoltos em um mundo próprio, rodopiando numa espécie de paixão criativa.

Finalmente, ninguém melhor que ele soube sintetizar a idéia de que o século 20 foi, acima de tudo, o século do homem comum.

Adeus velho amigo. Você surgiu do nada.. Você alcançou suas estrelas e colheu uma cesta cheia de sonhos. Seu legado são os campos ondulantes de culturas de alimento. Dentre os membros da Maior das Gerações, você foi o maior de todos!

(** Biografia “Borlaug-The mild mannered Maverick who fed a billion people”- 2o. volume no prelo).
(cv)
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