JULHO 19

As colheitas de cana-de-açúcar, café, citros e muitas outras frutíferas avançam nas regiões produtoras enquanto o frio e a estação seca preparam as plantas para as novas floradas e futuras produções.

 
 ENTREGA PRÊMIO
 Busca
 
Voltar VoltarImprimirEnviar para um amigo
(ddm)
:: MORRE NORMAN BORLAUG, O APÓSTOLO DO ALIMENTO
Fernando Penteado Cardoso - Eng.Agr.Sênior, ESALQ-USP1936, Presidente da Fundação Agrisus - agrisus@agrisus.org.br
Grande amigo do Brasil visitou o país desde a década de 1940 quando se dedicava ao melhoramento de variedades de trigo e procurava plantas diversificadas por todo o mundo, inclusive no Rio Grande do Sul, onde Beckmann se dedicava à seleção desse cereal. Na década dos anos 1990 viajou diversas vezes para Sete Lagoas/MG para colaborar com a Embrapa na genética da variedade do milho de proteína de qualidade, conhecido por "Opaco 2".

Em 1995, a convite da empresa Manah S.A. percorreu a região do cerrado e pronunciou palestra a funcionários e produtores convidados, ocasião em que emitiu o inédito elogio de que o que acabava de ver na recuperação do cerrado, transformando terras fracas em solos férteis de alta produtividade, era o maior acontecimento na história da agricultura do século XX, a nível mundial.

Retornou ao Brasil no inicio de 2004 por iniciativa própria pois queria ver o que havia acontecido no cerrado. Em companhia do Prof. Ed Runge da Universidade Texas A&M e do Presidente da Fundação Agrisus, percorreu os estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais em São Paulo tendo feito palestra na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em Piracicaba e visitado o Reitor da Universidade de São Paulo. Após presenciar a colheita de soja em Sapezal/MT, seguida de plantio de milho logo a seguir, ele confidenciou "este foi um dos dias gratificantes de minha vida".

Esteve presente à cerimônia da outorga do Prêmio Mundial do Alimento (World Food Prize), instituído por sua iniciativa, quando três agrônomos foram distinguidos pelo trabalho de recuperação do cerrado brasileiro: Alysson Paolinelli (ex-Ministro da Agricultura, idealizador do Programa do Cerrado - PROCER na década de 1980) e Edson Lobato (EMBRAPA-CERRADO, Planaltina/DF) e o americano Colin McClung (IRI, Matão/SP).

Cientista dedicado à agricultura recebeu o Nobel da Paz em 1970, por sua contribuição para a paz através do aumento na produção de alimentos. É considerado o "pai" da chamada "Revolução Verde".

Formou-se pela Universidade de Minnesota em 1942, graduando-se em genética e patologia vegetal. Indo para o México, engajou-se em pesquisas que resultaram no desenvolvimento de diversas cultivares de trigo, com alta resistência e produtividade. Graças à aplicação prática do resultado das pesquisas de Borlaug, em 1963 o México se tornou exportador de trigo. Posteriormente, essas variedades de trigo foram introduzidas por Borlaug na Índia e no Paquistão, sendo que a produção de trigo destes dois países dobrou entre 1965 e 1970. Mais recentemente, ajudou a levar estes métodos de aumento da produção agrícola para outros países asiáticos e para a África.

O mundo chora a perda de tão distinto agrônomo/cientista. um idealista preocupado com a produção mundial de alimento no presente e no futuro.

Fontes: Esalq/Wikipedia

Leia abaixo um de seus últimos artigos, publicado em agosto no Wall Street Journal e reproduzido no início de setembro no site da Agrisus:

OS PRODUTORES PODEM ALIMENTAR O MUNDO

Melhores sementes e fertilizantes, não mitos românticos, permitirão que assim o façam.

Por NORMAN E. BORLAUG*

No início deste mês, em L"Áquila, Itália, uma pequena cidade devastada por um terremoto, os lideres dos países G-8 aprovaram uma verba de 20 milhões de dólares para ser usada durante três anos como auxilio para investimento rural que ajudará pequenos produtores de escassos recursos a adquirir melhores sementes e fertilizantes, bem como a auxiliar nações pobres a se alimentarem. Para aqueles que, como nós, passam suas vidas trabalhando pela agricultura, o enfoque na produção de alimentos versus distribuí-los é um passo gigantesco na direção certa.

Providos das ferramentas apropriadas, os produtores têm demonstrado uma habilidade excepcional, para alimentarem a si próprios e a terceiros, bem como para dar partida no motor econômico capaz de reverter o ciclo crônico da pobreza. E o afastamento da pobreza oferece ao mesmo tempo uma chance de maior estabilidade política em seus países.

Mas ao mesmo tempo em que a terra tremia sob a comunidade italiana de L"Áquila, assim também sacudiu-se o panorama político em outras partes do mundo, criando dúvidas infundadas sobre as ferramentas agrícolas criadas através da ciência moderna, a exemplo do milho bio-tecnificado em certas partes da Europa.Mesmo aqui em casa (EUA), alguns elementos da cultura popular romantizam os métodos antiquados e ineficientes de produção, evitando o uso de fertilizantes e defensivos, argumentando que os EUA deveriam reverter e produzir somente alimentos orgânicos locais. As pessoas podem comprar alimentos orgânicos se desejarem e tiverem poder aquisitivo para tal, mas não às custas da fome no mundo – 25.000 pessoas morrem de fome a cada dia.

Infelizmente, essas distrações nos tolheram chegar ao principal objetivo. Consideremos que a atual produtividade agrícola levou 10.000 anos para alcançar cerca de seis bilhões de toneladas brutas de alimento por ano. Hoje, perto de 7 bilhões de pessoas consomem por ano quase a totalidade desse volume estocado. Analisando o fator da prosperidade crescente das pessoas, ao lado de perto de três bilhões de novas bocas pelo ano 2050, a gente rapidamente pode perceber que o mais elementar cálculo sugere que dentro das próximas quatro décadas os produtores do mundo terão que dobrar sua produção.

Muito provavelmente eles precisarão atingir esse feito em uma área que vem se encolhendo e frente a exigências ambientais causadas pela mudança climática. De fato, este mês a Oxfam publicou um estudo concluindo que os efeitos múltiplos da mudança climática poderiam “reverter todo o trabalho de 50 anos para extinguir a pobreza” resultando na “maior tragédia humana deste século”.

Nesta época de necessidade crítica, o epicentro de nosso trabalho coletivo deveria se concentrar em conseguir investimentos contínuos, tanto públicos como privados, em novas tecnologias para uma produção agrícola eficiente. Investimentos como os que foram anunciados pelos líderes do G8 muito provavelmente iriam ajudar a colocar as ferramentas conhecidas, tais como fertilizantes e sementes híbridas que por décadas vem sendo usadas no mundo desenvolvido-, nas mãos dos pequenos produtores de locais remotos como da África com potencial para impacto comprovado e conferido.

Esse investimento não seria destinado para incrementar novas e inéditas descobertas, tais como sementes de variedades tolerantes à seca, resistentes a insetos ou mais produtivas, que trazem avanços ainda mais rápidos. Para realizar isso, os governos precisam tomar decisões sobre o acesso a novas tecnologias, tais como organismos geneticamente modificados- com base na ciência e não em tópicos políticos adicionais. A liberdade de mercado irá estimular investimentos continuados, inovações e novos desenvolvimentos pelas instituições públicas de pesquisa, empresas privadas e criativas parcerias publico/privadas.

Já podemos ver o valor destes investimentos em andamento, simplesmente verificando os ganhos acima de dois dígitos na produtividade do milho e da soja em grande parte do mundo desenvolvido. Nos EUA, entre 19987 e 2007, a produtividade do milho aumentou em mais de 40% a da soja perto de 30%, enquanto que o trigo ficou para trás, com aumento de apenas 19% no mesmo período. A falta de investimentos significativos no arroz e trigo, dois dos mais importantes alimentos básicos necessários para alimentar o mundo em crescimento, é infeliz e de curta visão. Tal fato manteve a produtividade desses dois alimentos básicos nos mesmos níveis relativos encontrados no final dos anos 1960, e próximos aos da Revolução Verde que ajudou o México e a Índia a passarem de famintos importadores líquidos de grãos para exportadores.

Neste ponto, também, o terreno parece estar vagarosamente se alterando na direção certa, através de recentes investimentos privados para trigo e parcerias publico/privadas em milho, para que a África readquira uma posição no mercado. Estes investimentos e colaborações são críticos em nosso questionamento para que se alcance o tão necessário ganho em produtividade no arroz e no trigo, beneficiando os produtores de todo o mundo-e, no final, de todos nós que dependemos deles para produzirem nosso alimento diário.

Dentro da história, uma coisa é certa: a Civilização, como a conhecemos, não poderia ter evoluído, nem poderia sobreviver, sem um suprimento adequado de alimento. Da mesma forma, a civilização que nossos filhos e as futuras gerações irão encontrar não evoluirá sem acelerar o passo para o investimento e a inovação da produção da agricultura.

*Dr. Borlaug, um professor da Universidade Texas A&M, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1970 por sua contribuição para o suprimento de alimento para o mundo.

(Fonte: Wall Street Journal, NY, 30/08/2009)


(ddm)
Voltar VoltarImprimirEnviar para um amigo

Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
Contato: agrisus@agrisus.org.br e agrisus@fealq.org.br