JANEIRO 2019

Soja e outras plantas de verão em pleno crescimento.
Citros, café e cana de açúcar enfrentando limitações do clima.

 
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:: O FÓSFORO NO SPD
Fernando Penteado Cardoso (ESALQ-USP,1936) - O FÓSFORO-(P) NO AMBIENTE DE PLANTIO DIRETO** - agrisus@agrisus.org.br

O FÓSFORO-(P) NO AMBIENTE DE PLANTIO DIRETO**

Fernando Penteado Cardoso*

Ao longo de anos e anos, concentrado em fabricar e vender fertilizantes, tive oportunidade de ler, de discutir, de ouvir palestras, de promover pesquisas, de observar lavouras e de escutar opiniões de agrônomos e de produtores sobre o fósforo-P e as adubações fosfatadas.

Ficaram-me na lembrança alguns preceitos e conclusões, do Brasil e do exterior, que procurei reproduzir de memória, à luz dos quais parece-me justificado analisar a matéria dentro do novo ambiente do plantio direto.

Eis o que me vem como recordação:

1- As raízes absorvem o P por difusão após encontrá-lo. Uma vez absorvido, o P rapidamente invade toda a planta, movimentando-se em todas as direções, distribuindo-se pelos tecidos. Chega a se transferir, através do floema, de uma raiz que o absorveu, para outra raiz em posição oposta e afastada.

2- O P não se movimenta na terra, permanecendo onde foi colocado. Pouco a pouco minhocas, larvas e insetos e suas galerias, promovem uma distribuição do P por efeitos mecânicos e digestivos. As raízes, por sua vez, ao se decomporem deixam o P no local de seus tecidos. Assim, lentamente, o P vai se distribuindo pelo perfil do solo.

3- Quando posto no solo como composto solúvel em água ou ácidos fracos, o P passa rapidamente para um estado insolúvel, mas que ainda pode ser absorvido pelas raízes (P lábil). Pouco a pouco vai se tornando menos e menos lábil, até atingir um estado inassimilável pelas plantas, perdendo então quase todo seu valor como nutriente.

4- A perda de valor como nutriente –chamada de fixação ou retrogradação-, é tanto mais intensa quanto mais o solo contiver argilas e óxidos de ferro e de alumínio, e quanto maior for o contacto do P com esses componentes. Por outro lado, a matéria orgânica e a menor acidez pelo cálcio podem retardar a fixação.

5- O processo de fixação pode também ser retardado reduzindo o contacto do material fosfórico com os componentes do solo. A aplicação localizada em banda estreita ou em cova pode retardar a retrogradação, enquanto não for incorporado por revolvimento. O fósforo do adubo granulado tem o mesmo efeito por certo tempo.

6- A fração do P que permanece lábil, tanto quanto os demais nutrientes, requerem água para serem absorvidos pelas raízes, cessando o processo quando o solo se torna seco.

Valem aqui considerações complementares justificando algumas deduções relacionadas ao sistema de plantio em solo imperturbado recoberto de resíduos, seja no chamado “plantio direto na palha”.

Aplicado na superfície e não se movimentando, o P corre o risco de não poder ser absorvido caso venha a faltar umidade durante os veranicos ou no correr da estiagem sazonal. Para atenuar esse inconveniente sugere-se “plantar o fósforo” em banda estreita sub-superficial, para mantê-lo por mais tempo em camada úmida, mesmo no caso de adubação antecipada. É prudente não mudar o que está dando certo em milhões de hectares onde o adubo é aplicado no fundo do risco abaixo da semente.

No sistema de plantio direto, quando não há incorporação pelo revolvimento do solo, o P aplicado em bandas no fundo do risco permanece onde foi colocado. Na sucessão das adubações, ano após ano, as bandas se somam umas às outras, formando então um horizonte sub-superficial saturado de P, de menor fixação pela terra. O efeito residual é, assim, bastante diverso do observado quando o solo é revolvido periodicamente, em que pese certa desuniformidade do horizonte rico em P. A alta mobilidade desse nutriente no tecido vegetal compensa a irregularidade: qualquer raiz transfere fósforo para toda a planta.

Um caso semelhante é o da cultura da cana, que pouco reage à adubação fosfatada por 4/5 anos, porque a banda saturada de P existente no fundo do sulco do plantio é capaz de satisfazer as necessidades da gramínea durante esse período. No mesmo sentido, reportou-me Guerino Ferrarin (30.000 ha de soja em Lucas do Rio Verde/MT): “Fiz a observação que o senhor sugeriu: em uma área de vários anos sob plantio direto, deixei de adubar com fósforo e a produção de soja foi a mesma”.

A amostragem de terra pelo procedimento usual, misturando o solo da camada de
0 a 15/20 cm, não revela a existência desse horizonte rico de P, em condições de suprir as plantas por meses ou mesmo por anos seguidos. Já existem pesquisas preliminares sobre novas técnicas de coleta de amostras no ambiente de plantio direto. Urge a continuidade dessas experiências para definir procedimentos que venham a indicar as situações em que se pode economizar P, reduzindo a despesa e o custo de produção.

Que tal, por exemplo, amostrar o solo em separado para P, coletando terra da camada 5/10 cm? Pelo menos para tirar a limpo estas deduções técnicas, coincidentes com o comportamento da cana e com o resultado do Sr. Ferrarin.


* Engenheiro Agrônomo Sênior, Fundação Agrisus, S.Paulo.
** Boletim APDC, Ag/St.2003






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