JULHO 19

As colheitas de cana-de-açúcar, café, citros e muitas outras frutíferas avançam nas regiões produtoras enquanto o frio e a estação seca preparam as plantas para as novas floradas e futuras produções.

 
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:: AGRICULTURA TROPICAL E O SPD
Fernando Penteado Cardoso - Eng.Agr.Sênior, ESALQ-USP1936, atual presidente da Fundação Agrisus - agrisus@agrisus.com.br
Agricultura tropical pode ser definida como aquela localizada entre a linha do trópico - Capricórnio no Brasil- e o Equador. À exceção das regiões áridas e semi-áridas, seu clima caracteriza-se basicamente por um verão quente e chuvoso e um inverno ameno e seco. Sub-tropicais seriam as áreas um pouco mais ao sul do trópico, com verão igualmente chuvoso mas com inverno frio, geralmente úmido.

Fatores regionais decorrentes das montanhas, das temperaturas do oceano adjacente e dos sistemas de circulações atmosféricas, resultam em limites irregulares das mencionadas regiões. Sofrem ainda das influências orográficas locais, sem que a cobertura vegetal existente contribua para as variações climáticas.

Ao analisar os tipos e quantidades de resíduos no sistema de plantio direto (SPD), sugerimos a divisão das áreas cultivadas com cereais em quatro regiões climáticas, levando em conta o regime de chuva e as temperaturas no inverno. A menor ou maior facilidade de obter uma segunda cultura e consequentemente produzir “palha” protetora do solo depende muito das mencionadas condições climáticas, requerendo práticas agrícolas ajustadas a cada uma dessas regiões.

O calor e a umidade são os principais fatores que condicionam as atividades biológicas que provocam a decomposição dos resíduos orgânicos, resultando ao final em materiais humíferos sólidos e líquidos capazes de recompor os teores de húmus do solo. Trata-se de um processo dinâmico, que resulta em pontos de equilíbrio proporcionais à intensidade do suprimento de resíduos.

Na mata, entra grande quantidade de resíduos e a matéria orgânica humificada-MOH chega a 5 a 6%. Após anos de culturas com baixa restituição, o teor se estabiliza entre 2 e 3% em solos argilosos e 1 a 2% nos arenosos. Aumentando o retorno da palha pelo SPD, o equilíbrio pode ser mais alto, talvez 3 a 4 % no primeiro caso. A reposição dos resíduos pelo SPD é a única maneira de renovar a MOH, mantendo um nível adequado para uma boa fertilidade.

A MOH, ao se decompor, libera nutrientes para as plantas, processo que cessa gradativamente por falta de reposição de resíduos. Por sua vez, o nitrogênio proveniente do solo se origina da decomposição do húmus e da fixação pelas bactérias simbióticas ou associadas, ou ainda por organismos independentes, os quais têm como fonte alimentar o próprio húmus. As plantas geralmente dão preferência ao nitrogênio vindo do solo, antes de absorverem esse nutriente das adubações.

Nas culturas perenes sob SPD, tem-se obtido resultados positivos com a roçada de gramíneas permanentes e decorrente reposição de resíduos. As braquiarias parecem ser insuperáveis nessa intermediação e reciclagem de nutrientes.

Recente relatório apresentado pela Fundação Agrisus comprova que, nas culturas de grãos, fósforo dos adubos, quando não misturados à terra no SPD, forma camadas de alto teor, sejam estoques desse nutriente em forma disponível pela menor fixação. Para manutenção desse estoque as dosagens de arranque parecem ser suficientes, o que resultaria em redução do custo desse insumo.

Quanto ao potássio, as pesquisas feitas estão a indicar que a sucessão contínua de culturas no SPD, sejam comerciais ou para palha, ensejam uma reciclagem que mantém bons níveis desse nutriente nas camadas superficiais da terra, reduzindo as perdas por lixiviação. Proximamente serão interpretados os dados obtidos de 2.300 amostras coletadas nas principais regiões agrícolas do país.

Em clima tropical de chuva de verão ocorrem mangas d’água, cuja intensidade pode ser superior à capacidade de absorção do solo. Ademais, existem solos arenosos que formam crosta superficial que dificultam a infiltração. O escorrimento é então inevitável e causará menores danos se a superfície da terra estiver recoberta de resíduos ou “palha”, pois seu efeito é de esparramar o lençol em movimento, reduzindo ao mesmo tempo a velocidade. A água, então limpa, chegará às baixadas livre de sedimentos por não haver arrastado terra e lama em seu percurso.

Nesse processo é da maior importância manter a permeabilidade e uma boa infiltração. Para tanto é básico conservar intactos os canalículos deixados pelas raízes bem como os poros proporcionados pelos grumos de bom tamanho. A água que percola deixa de escorrer e vai enriquecer o lençol freático, assegurando o fluxo dos mananciais e o nível dos poços de uso doméstico.

A dispensa do preparo do solo proporciona esse efeito benéfico, ainda mais por evitar o acúmulo de argila logo abaixo da camada quando revolvida, formando um horizonte impermeável (pé de grade) que, inibindo a percolação, aumenta o risco da erosão, alem de dificultar o aprofundamento das raízes.

A boa porosidade decorrente dos canalículos e dos grumos favorece também o arejamento do solo, importante para a vida tanto das raízes, como da flora e fauna subterrâneas, que requerem oxigênio para sua sobrevivência e de celulose e derivados como alimento. Essa flora e fauna fazem parte do complexo sistema da nutrição mineral das plantas.

Por outro lado, uma boa porosidade facilita a penetração das raízes em busca de água, minimizando os efeitos dos veranicos, já atenuados pela cobertura de palha que reduz as perdas por evaporação.

Os resíduos em contínua reposição protegem o solo da ação do vento, evitando as nuvens de poeira que disseminam herbicidas indesejados, bem como ovos de nematóides, vindo a infestar áreas distantes, além de causarem incômodo aos homens e aos animais.

O SPD é a melhor tecnologia até hoje desenvolvida para melhoria e proteção do solo, fator primordial para uma agricultura estável, que se perpetua, e que é, portanto, sustentável. Em longo prazo, a produção agrícola em clima tropical depende de um SPD eficiente para sua perpetuidade.

Somente o SPD enseja o preceito ético e humanitário de entregar um solo fértil a nossos sucessores.
(cv)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
Contato: agrisus@agrisus.org.br e agrisus@fealq.org.br