MARÇO 2019

Colheita da soja avança para o final e milho segunda safra consolida plantio. Chuvas e calor recuperam desempenho de cultivos perenes.

 
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:: SPD, TÉCNICA A SERVIÇO DA SUSTENTABILIDADE
Fernando Penteado Cardoso - - Engenheiro agrônomo sênior (USP ESALQ, 1936), fundador e ex-presidente da Manah SA, ex-secretário da Agricultura do Estado de São Paulo e atual presidente da Fundação Agrisus-Agricultura Sustentável
O Sistema de Plantio Direto (SPD) é um procedimento tecnológico pelo qual as plantações são feitas sobre a terra imperturbada, recoberta de resíduos. Tem por objetivo melhorar e conservar o solo, constituindo, hoje, uma técnica fundamental para a sustentabilidade da agricultura. Tomando por base a definição Bruntland de desenvolvimento sustentável – qual seja, “aquele que satisfaz as necessidades do presente sem prejudicar a capacidade das gerações futuras virem a satisfazer suas necessidades” –, podemos definir uma agricultura nessas bases como aquela que apresenta viabilidade econômica, persegue a eficiência, protege o ambiente e persiste para o futuro.

É certo que a sustentabilidade agrícola depende de inúmeros fatores. O sistema Rise, proposto pelo Colégio Suíço de Agricultura (Universidade de Ciências Aplicadas, em Berna), analisa diversos fatores que vêm a assegurar uma agricultura sustentável: energia, água, solo, biodiversidade, potencial de emissões, proteção das plantas, destinação dos resíduos, fluxo de caixa, investimentos e situação econômico-social, sem classificar a importância ou prioridade entre os fatores. É inquestionável que a fertilidade satisfatória do solo tem papel preponderante e fundamental para alcançar a desejada sustentabilidade. Daí o alto significado da tecnologia do SPD, sistema viabilizado pela invenção dos herbicidas.

A melhoria da condição física da camada de 20 cm do solo pode ser obtida, com sucesso, por meio de métodos vegetativos. Se arações e gradagens afofam a terra superficial, o raizame fasciculado das gramíneas também o faz, ao se decompor, deixando uma extensa rede de canalículos. Evitando a lavra, contorna-se o inconveniente da dispersão da argila que, percolando, vai formar, mais abaixo, a camada adensada sobre o horizonte não perturbado. O “pé de arado” ou “pé de grade” é, por vezes, confundido com a compactação mecânica, e são ambas indesejáveis, ao reduzir a permeabilidade e favorecer escorrimentos danosos, mesmo após leves precipitações.

A produção de resíduos e a manutenção sobre a superfície é, sem dúvida, o fator básico de um plantio direto bem feito. Recente levantamento a respeito do estado da arte do SPD, que realizou 1.500 observações ao acaso, nas principais zonas agrícolas do país (Projeto Rally, Safra 2008, com apoio da Fundação Agrisus – Agricultura Sustentável), mostrou que o volume de resíduos no final do verão, nas culturas de soja e milho, está muito aquém do desejado, justificando um levantamento das causas e estudo das soluções. A pesquisa já demonstrou, no entanto, que volumes adequados de fitomassa podem ser obtidos tanto por consorciação com a cultura comercial, como semeando gramíneas, na fase final das plantações ou logo após a colheita.

Nas regiões de outono e inverno úmido, ameno ou quente, as Brachiarias semeadas simultaneamente no milho, ou alguns dias depois, tendo o desenvolvimento atenuado por reguladores de crescimento, demonstraram ser um sistema eficaz. Estudos recentes mostram a viabilidade de consorciação similar na soja, havendo já comprovação definitiva do bom resultado da sobre-semeadura, pouco antes da colheita. Colhida a soja, outras espécies, como o milheto, mostram-se adequadas. Nas regiões de inverno frio e chuvoso, somente são viáveis as gramíneas de inverno, como a aveia preta e o azevem.

Aveia, azevem e Brachiárias forrageiras, implantados junto ou após culturas de verão, podem ser pastoreados no intervalo das plantações comerciais, para produção de leite ou carne. Dá-se ao sistema o nome de Integração Lavoura-Pecuária (ILP), quando criações e plantios se sucedem na mesma área. É certo que, tanto milho como sorgo, seja de verão ou de segunda cultura (a dita “safrinha”), deixa resíduos em volume satisfatório, de lenta decomposição, o que não acontece com a soja, cuja resteva desaparece rapidamente. Um parâmetro que pode ser adotado é um volume de resíduos de 4 t/ha de matéria seca, na implantação da cultura, remanescendo 50% por ocasião da colheita.

Nas culturas permanentes (café ou citrus, por exemplo), a introdução da espécie desejada, seja Brachiaria, Arachis ou outra, é seguida de ceifa periódica, cuidando-se, na fase inicial, para que a planta de cobertura não venha a concorrer em nutrientes com a cultura principal. Sistematizada a reposição sucessiva, os resíduos promovem a proteção da superfície e a melhoria da fertilidade química, física e biológica do solo, além de deprimirem as plantas invasoras, por efeitos alelopáticos. A cobertura da superfície reduz a velocidade do escorrimento, dando mais tempo para a infiltração e evitando a erosão. Ao mesmo tempo, controla as oscilações de temperatura e a intensidade da evaporação. Protege o solo da ação dos ventos, deixando de formar nuvens de poeira que carregam químicos indesejados e ovos de nematóides, além de poluírem a atmosfera, sujando ambientes e contaminando a respiração.

As propriedades químicas do solo são melhoradas pelos resíduos em decomposição. Ácidos húmicos solúveis tamponam a toxidade do alumínio (Al), nos solos deficientes de cálcio. O húmus penetra, pouco a pouco, aumentando a retenção de bases e água, além de reduzir a fixação do fósforo. Este nutriente, ao permanecer intocado, ano após ano, forma um horizonte enriquecido de alto teor disponível, aumentando o coeficiente de utilização. As plantas formadoras de resíduos promovem a reciclagem de nutrientes, aumentando a eficiência destes, devido à lenta liberação, e minimizando as perdas por lixiviação.

Húmus e ácidos húmicos também favorecem a agregação da argila, tornando o solo mais poroso, permeável e arejado, o que incentiva a formação e penetração das raízes, tanto quanto à multiplicação da flora e fauna (ambos em busca de alimento), de oxigênio e água. A fitomassa, em seus vários estágios de decomposição, constitui o alimento fornecedor de energia e nutrimentos à flora e fauna existentes no solo. Aumenta a atividade das bactérias e fungos fixadores de nitrogênio. Promovem e proliferam insetos perfuradores, estabelecendo assim galerias que favorecem a penetração das raízes e da água saturada de sais nutritivos. Vicejam os micorrizos que, associados às radículas, aumentam a absorção de nutrientes. Em suma, instala-se um novo equilíbrio biológico, que, por vezes, é desfavorável a pragas e moléstias indesejáveis.

A matéria orgânica, inicialmente crua, está em contínua decomposição e desaparecimento. A reposição dos resíduos, camada sobre camada, ano após ano, renovando-se sem parar, constitui, sem dúvida, o principal fator do sucesso do SPD. A implantação deste sistema pode apresentar dificuldades que devem ser reconhecidas e superadas. As terras novas, recém abertas, são temporariamente livres de invasoras, mas requerem desobstrução de troncos e galhada. É necessário, ainda, remover raízes enterradas, aplainar saliências do terreno, suprir cálcio, quando deficiente, e adubar como necessário. Não obstante, em sua totalidade, é uma situação favorável.

As terras velhas, cansadas e erodidas, podem apresentar valas morro abaixo, áreas de subsolo exposto, camada adensada, baixa porosidade, banco de sementes de invasoras e de deficiências químicas. Requerem atenção especial e o reconhecimento de custos mais elevados de implantação e de condução nos primeiros anos de produção. Esses custos podem abranger a perda de uma safra, quando um período de recuperação é necessário para restauração das propriedades físicas do solo, por meio do cultivo de uma gramínea precedida do rompimento do “pé de grade”, por escarificação.

Ao longo dos anos, a prática do SPD tem demonstrado vantagens econômicas diretas e indiretas: gastam-se menos horas de serviço mecanizado, economizam-se fertilizantes e defensivos e, o que é muito importante, evita-se o plantio retardado, fora da melhor época, ao permitir a retomada da semeadura poucas horas depois das chuvas. A maior vantagem econômica vem, todavia, da melhoria da fertilidade e da produtividade ao longo dos anos, em benefício dos atuais detentores da terra, bem como de seus sucessores.

O SPD é o melhor método até hoje desenvolvido para uma agricultura conservacionista, verdadeiramente sustentável. Pode e deve ser aperfeiçoado pela pesquisa agronômica, concentrada na solução dos problemas mencionados e em outros eventualmente constatados. O SPD constitui um novo ambiente agrícola, um novo sistema de cultivo, uma nova filosofia de manejo do solo. É uma técnica confiável, inovadora e avançada. E está aí para ficar.

* Artigo publicado na seção Fórum da Revista Visão Agrícola - especial sobre Plantio Direto, da ESALQ, em dez/2009


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