MARÇO 2019

Colheita da soja avança para o final e milho segunda safra consolida plantio. Chuvas e calor recuperam desempenho de cultivos perenes.

 
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(mla)
:: ESTARÁ REALMENTE O PLANTIO DIRETO GAÚCHO SENDO MAL CONDUZIDO?
Telmo J.C.Amado - febrapdp@uol.com.br/www.febrapdp.org.br
Opinião: Estará realmente o plantio direto gaúcho sendo mal conduzido?

Telmo J. C. Amado1

Na VIII Reunião Sul-Brasileira de Ciência do Solo realizada em Santa Maria (RS) de 24 a 26/11/2010, um dos principais painéis abordou o tema “Práticas complementares de conservação do solo e da água em sistema plantio direto”. Representantes de institutos de pesquisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, das universidades e da iniciativa privada integraram o painel. Na primeira fileira do auditório, atento a todas as discussões, nada menos do que o pai do plantio direto brasileiro, Herbert Bartz, acompanhado de diretores do Clube Amigos da Terra (CAT) de Panambi e Tupanciretã (importantes municípios agrícolas), diretores da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, pesquisador da Fundacep, técnicos da Cotripal (Cooperativa Agricola de Panambi Ltda) e mais 250 pesquisadores, professores, extensionistas e acadêmicos participantes do evento.

Solicito a permissão aos leitores para omitir deliberadamente o nome dos painelistas e o de suas instituições, pois não é intenção deste artigo ocasionar indisposição com eles ou com suas instituições e sim discutir alguns das avaliações por eles apresentadas sobre a situação atual do plantio direto gaúcho. A análise de dois dos painelistas é de que o plantio direto gaúcho está sendo mal conduzido! Falhas na sua implementação estariam comprometendo o seu desempenho. Assim, segundo os mesmos atualmente a qualidade do solo sob plantio direto seria baixa, com compactação do solo generalizada, concentração superficial de nutrientes, raízes restritas aos primeiros centímetros do perfil do solo, elevada susceptibilidade aos déficits hídricos, presença de erosão e contaminação da qualidade da água com sedimentos e agroquímicos. As taxas de erosão nas lavouras de plantio direto estariam se aproximando das verificadas nas décadas de 70 e 80, quando o preparo convencional associado ao pousio de inverno e a queima da palhada eram práticas dominantes. Tal situação, segundo avaliação de um dos painelistas, estaria ocorrendo de Itaãra, município próximo a Santa Maria, no centro do Estado, a Vacaria, no norte, abrangendo praticamente todo o planalto rio-grandense, principal região produtora de grãos e berço do plantio direto.

Entre as principais causas de tal situação estariam à monocultura de soja, o descuido com as culturas de cobertura no inverno (entressafra), a retirada dos terraços construídos no tempo do preparo convencional, adubações a lanço, utilização de máquinas maiores e mais pesadas e longo tempo de adoção do plantio direto sem interrupção. Além disto, a preocupação dos agricultores estaria concentrada em obter o máximo lucro e haveria pouca preocupação em preservar a matriz produtiva, o solo, assim como os demais recursos naturais.

Neste contexto, foi sustentado que a produção de elevada quantidade de palha já não seria mais um indicador de qualidade e o plantio direto gaúcho se comparado com o de outros Estados, como o Paraná, estaria com qualidade inferior, por não possuir os terraços. Entre as alternativas propostas pelos painelistas de aprimoramento do plantio direto destacam-se: o retorno da utilização de terraços, agora com maiores espaçamentos, alternância do plantio direto com a escarificação, ou outra forma de mobilização do solo, e a rotação de culturas.

Esta percepção sombria de dois dos painelistas sobre a qualidade do plantio direto gaúcho contrapõe-se com a dos produtores. Para estes, o solo, após duas décadas de plantio direto, está mais fértil, com teores de matéria orgânica recuperados, com bom potencial produtivo, menos susceptível a erosão, com satisfatória infiltração e, em geral, com boa qualidade. Enfim, os produtores gaúchos estão, na sua maioria, satisfeitos com o desempenho do plantio direto.

Então como explicar tamanha controvérsia? Visualmente viajando pelo Estado percebem-se sulcos de erosão em algumas lavouras sob plantio direto. Geralmente, estes sulcos ocorrem em locais onde pela conformação morfológica das coxilhas concentra-se um grande volume de água. Embora sejam perceptíveis estes indesejáveis sulcos, a generalização de que eles sejam consequência da baixa qualidade física do solo das lavouras sob plantio direto nos parece incorreta. As lavouras de plantio direto com problemas quanto a qualidade física do solo ocorrem em situações específicas como por exemplo quando a integração lavoura-pecuária é realizada sem seguir os requisitos técnicos de lotação de animais, tempo de diferimento da pastagem, manutenção de uma quantidade insuficiente de palhada protegendo o solo, sub-fertilização e presença dos animais na pastagem mesmo em períodos em que o solo encontra-se muito úmido.

Outra situação preocupante é a de alguns pivôs, nos quais a reduzida utilização de culturas de cobertura, a sucessão de culturas com baixo aporte de fitomassa ao solo, a rápida decomposição dos resíduos e o tráfego intenso de máquinas agrícolas sob condições de umidade do solo elevada tem sido recorrentes. Embora isto, tanto a integração lavoura-pecuária quando as áreas sob pivô central não podem ser generalizadas como de inferior qualidade do solo.

No Sul do Brasil, temos os excelentes trabalhos dos Prof. Anibal (UFPR), Prof. Carvalho (UFRGS) e Dr Fontaneli (Embrapa) que evidenciam que a integração lavoura-pecuária pode ser de fato benéfica ao plantio direto, mas para isto o manejo de plantas e animais tem que ser cuidadoso. Mas e as demais lavouras sob plantio direto? Trabalhos realizados pela minha própria equipe de pesquisa e outros tantos têm revelado a ocorrência de compactação em locais específicos das lavouras, notadamente nas extremidades, aonde existe a necessidade de manobras das máquinas agrícolas e arremates. Porém, esta situação não ocorre de forma generalizada na lavoura, em realidade ocorre em áreas bem restritas e descontínuas. Portanto, a generalização de que nossas lavouras sob plantio direto estejam com qualidade física do solo comprometida nos parece inapropriada.

Entre as sugestões de aprimoramento do plantio direto gaúcho um dos painelistas propôs o plantio direto plus que consistiria na utilização do sistema por três anos alternado com um ano de escarificação. As vantagens desta combinação de sistemas de preparo seriam o incremento da infiltração da água no solo, o rompimento de camadas compactadas, o aumento da rugosidade superficial, o melhor desenvolvimento radicular das culturas, o controle da enxurrada e o pequeno efeito na mineralização da matéria orgânica. O painelista questionou o conceito de plantio direto contínuo e imexível. Apresentou ainda resultados de uma amostra de solo de uma camada superficial com teores de fósforo acima de 40 ppm e de potássio acima de 400 ppm acompanhado de uma camada subsuperficial com valores seis a oito vezes menores.

Na nossa opinião, a concentração de nutrientes na camada superficial do plantio direto não deve ser entendida como um fator limitante a produtividade das culturas. Na verdade teores tão elevados de nutrientes como estes são frequentes no pampa úmido, importante região produtora de grãos da Argentina, e também no cinturão do milho, no meio oeste americano. Estamos aproximando, pelo menos na camada mais superficial, nossos outrora inférteis solos tropicais e subtropicais, aos melhores solos agrícolas do mundo. Este fato ocorre por uma combinação de processos químico-biológicos com destaque para a elevada ciclagem de nutrientes pela utilização de culturas de cobertura com sistema radicular desenvolvido, incrementos do teor de matéria orgânica na camada superficial e da CTC, aumento da atividade biológica e utilização de adubações equilibradas (próximas a exportação via colheita), aproveitamento de formas não prontamente disponíveis de nutrientes pelas culturas de cobertura, entre outros. Já a fertilidade da camada sub-superficial, embora merecedora de nossa atenção, pode ser melhorada por práticas como o gesso e a calagem superficial que dispensam a mobilização do solo.

O Prof. Anghinoni (UFRGS e IRGA) sustenta a necessidade de desenvolver novos indicadores de fertilidade para interpretar a qualidade do solo sob sistema plantio direto que, quando bem conduzido e por tempo suficiente, apresenta complexas e dinâmicas inter-relações, que não seguem relações lineares e são influenciadas pelos fluxos de energia e matéria a que o sistema é submetido. Portanto, mobilizar o solo sob plantio direto, mesmo que a cada três anos, representaria mobilizar quase 4 milhões de ha com gasto de energia, desgaste de máquinas agrícolas, investimento em equipamentos, mão de obra, tempo de trabalho e consumo de diesel extraordinários. Neste caso, parece ser mais racional utilizar os princípios da agricultura de precisão e realizar esta atividade de forma localizada (manejo sítio-específico), somente naquelas sub-áreas da lavoura em que realmente isto for necessário.

Outra questão importante é entender que o plantio direto melhora a qualidade do solo de forma gradual, passando por diversas fases evolutivas, até alcançar a fase consolidada ou madura, após o transcurso de pelo menos dez anos de sua implementação de forma contínua, como proposto pelo Prof. J. C. M. Sá (UEPG). Neste processo, o ciclo do carbono desempenha um papel chave devendo ser adotadas práticas de manejo que incrementem o aporte de resíduos vegetais e reduzam as taxas de mineralização da matéria orgânica.

Trabalhos de pesquisa conduzidos pelos Prof. Mielniczuk e Prof. Bayer (UFRGS) reportaram uma relação linear entre o aporte de resíduos e o incremento da matéria orgânica na camada superficial. Um aporte em torno de 10 t de matéria seca ha-1 ano-1 tem sido proposto com um valor de referência para o Sul do Brasil. Neste inverno de 2010, o Estado obteve um recorde de produtividade de trigo e a produção de matéria seca das culturas de cobertura acompanhou este excelente desempenho, com aportes de 5 a 8 t ha-1. Assim, não é possível generalizar que os agricultores gaúchos não se preocupam com as culturas de cobertura de inverno. A pecuária, uma atividade tradicional do Estado, foi abstraída de muitas lavouras de grãos do planalto, exatamente para aumentar o aporte de fitomassa ao solo e reduzir os riscos de compactação. Além disto, muitas adaptações ao longo das últimas duas décadas foram implementadas pelos agricultores, tais como deslocar parte ou o total da adubação destinada às culturas de grão do verão para o inverno, visando o melhor desenvolvimento das culturas de cobertura, e utilizar semeadoras de última geração, que praticamente realizam a semeadura “invisível”, na qual fica difícil visualizar a linha de semeadura pela mínima mobilização e incorporação de resíduos.

O produtor Gérson Herter, de Lavras do Sul, nos reportou que uma das lições mais importantes que aprendeu no dia a dia do plantio direto foi de que o sucesso da safra de verão começa no correto manejo da cultura de cobertura de inverno. Portanto, não é de se estranhar que no trabalho Rally da Safra – Estado da Arte do Plantio Direto 2008, suportado pela Agrisus, o plantio direto gaúcho tenha se destacado no cenário nacional pela quantidade de resíduos aportados, elevada cobertura do solo e longo tempo de adoção do sistema sem interrupção. Não é possível negligenciar a experiência adquirida pelos agricultores com o sistema plantio direto, que por mais de 25 anos tem observado safra após safra, chuva após chuva, o comportamento deste sistema em suas lavouras. Este conhecimento precisa ser urgentemente resgatado pelos nossos pesquisadores. O sistema plantio direto não pode ser entendido com a lógica do preparo convencional.

Um dos pontos mais controversos no plantio direto gaúcho é quanto à retirada dos terraços, dimensionados para o sistema de preparo convencional. Não se trata de ser a favor ou contra o uso desta prática, mas acredito que a discussão sobre qualidade do plantio direto não pode ficar restrita a presença ou ausência de terraços. O assunto ganhou força nos últimos meses em função de um estudo conduzido no Paraná que concluiu que “plantio direto sem terraços não dá!”, suportando uma lei que regula a necessidade de terraços nas áreas de plantio direto e o temor que tal exigência também seja venha a ser futuramente aplicada no RS.

A questão é complexa, em situação de elevada declividade práticas mecânicas, como o terraceamento, podem ser necessárias para o controle da enxurrada. No entanto, outras práticas mais simples e menos onerosas como a semeadura em contorno e a utilização de nabo forrageiro, ou outra cultura de cobertura com sistema radicular bem desenvolvido, possam contribuir, juntamente com a manutenção de uma elevada quantidade de palha na superfície do solo, para o controle da enxurrada.

É possível afirmar, com uma margem muito pequena de erro, que não teremos mais taxas de erosão de 40 a 50 t ha-1 ano-1 como as verificadas no preparo convencional nas décadas de 70 e 80. Desta época ficou na memória as voçorocas, a necessidade de replantios após cada chuva forte e a estagnação da produtividade de nossas principais culturas. Ainda, nesta época, é que a compactação era generalizada e o sistema radicular das culturas ficava restrito a uma camada de 12 cm. Mas esta página foi virada na história da agricultura gaúcha. Particularmente, não acho adequado o termo “falhas na implementação do plantio direto”, pois ele conduz a pergunta: então de quem é a culpa? Daí vira e mexe e a conta recairá sobre os já sobrecarregados ombros dos nossos produtores. Esquece-se que o Brasil apresentou na adoção voluntária do plantio direto, por conta e risco total dos agricultores, o maior case de sucesso na implementação de uma prática conservacionista.

O Sul do Brasil, Paraná e Rio Grande do Sul, foram os pioneiros desta verdadeira revolução. Segundo o ministro da agricultura Vagner Rossi, a agricultura brasileira nas últimas duas décadas, justamente quando o plantio direto estava estabelecido, apresentou crescimento da produção de 152%. No Rio Grande do Sul não foi diferente, nossas principais culturas tem apresentado expressivo incremento de produtividade. Qualquer análise que se faça em termos de kg de grãos produzidos/kg fertilizante aplicado, kg de grãos/mm de precipitação, kg de grãos/litro de diesel consumido ou kg/unidade de área chegaremos à mesma conclusão de que a eficiência no uso dos insumos e recursos naturais na agricultura tem aumentado.

Temos agricultores que podem se orgulhar do seu trabalho, pois com muito menos recursos que outros países, infra-estrutura precária e limitado investimento em pesquisa, ainda assim são muito competitivos. O plantio direto é um dos alicerces desta competitividade. Volto a uma análise do nosso pioneiro Herbert Bartz, que ao observar as lavouras do planalto norte, neste giro pelo Estado, ficou positivamente impressionado com a qualidade do plantio direto gaúcho.

O sistema cooperativo também tem um papel relevante neste processo, pois por décadas tem gerado pesquisas aplicadas ao plantio direto, através da Fundacep, e realizado competentemente a extensão aos agricultores, através dos departamentos técnicos das cooperativas. Segundo nosso pioneiro atualmente alcançamos algo em torno de 50% das potencialidades do plantio direto. Há um caminho a ser percorrido, mas certamente valorizar as conquistas obtidas, interpretar corretamente as profundas transformações ocorridas nas últimas décadas na agricultura e perseverar no plantio direto é o caminho que está no nosso horizonte. Vida longa ao plantio direto gaúcho e brasileiro.

(mla)
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Conveniada: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz - FEALQ 
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