DEZEMBRO 2017- Semeaduras de primavera terminadas salvo algodão e R1 pelo clima errático. Erosões nas terras sem resíduos. Floradas atípicas trazem dúvidas sobre andamento. PIB do agro inferior no 3º trim. devido antecipação das exportações de soja.
 
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(mla)
:: AGRÔNOMO BRASILEIRO GANHA PRÊMIO NORMAN BORLAUG DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE FERTILIZANTES (IFA)
A entrega do prêmio está marcada para 14/11, em Zurique (Suíça). Pesquisador do IAC desde 1975, Cantarella deu uma entrevista exclusiva à Fundação Agrisus para falar de seu trabalho. Confira a seguir:

Fundação Agrisus: Seu trabalho é sobre redução de gases do efeito estufa associada ao uso de fertilizantes nos trópicos. Há quanto tempo o sr se dedica ao tema?

Heitor Cantarella:Venho trabalhando ao longo de minha carreira em fertilidade do solo, eficiência de uso de fertilizantes, medição de perdas de N no ambiente, entre outros assuntos. Durante muito tempo me dediquei a medir perdas de N por volatilização de amônia e meios de mitigar essas perdas. Mais recentemente, a partir de 2011, com a preocupação da sociedade com as emissões de gases de efeito estufa, passei a trabalhar também com medições de perdas desses  gases , tais como dióxido de carbono (CO2), metano e, principalmente, óxido nitroso (N2O) associadas ao manejo agrícola e ao uso de fertilizantes.

FA: Por que escolheu focar em cítricos e cana-de-açúcar para a produção de etanol? o sr considera que o uso de etanol ainda possa crescer no Brasil?

HC:Conhecer as emissões de gases de efeito estufa provenientes da agricultura é importante para garantir que tenhamos uma agricultura sustentável pois essa é uma preocupação em nível mundial. A escolha por focar principalmente em citros e cana-de-açúcar decorre da relevância dessas culturas para a economia brasileira. Temos que ter dados obtidos em nossas condições, adequadamente medidos, até para evitar que informações distorcidas que, muitas vezes, aparecem em fóruns internacionais, possam ser utilizadas como barreiras não tarifárias na pauta de exportações brasileiras. No caso do etanol de cana-de-açúcar, por exemplo, os dados sobre sustentabilidade e quanto de emissão de gases de efeito estufa é realmente evitado ao substituirmos a gasolina, são fundamentais. No Brasil nós sabemos que temos no etanol um biocombustível sustentável, mas precisamos medir e divulgar os dados para que não pairem dúvidas sobre isso. Atualmente, no Brasil, a proporção de etanol no consumo de combustíveis para veículos leves está em torno de 40%. Essa porcentagem já foi ligeiramente superior a 50% por um curto período de tempo, mas temos as condições e o potencial de voltar àqueles patamares ou ainda superiores, e substituir mais gasolina por etanol, com vantagens para a economia e para o ambiente.

FA: Qual sua linha de trabalho? quais suas principais conclusões até agora?

HC: Boa parte da energia gasta para produzir cana-de-açúcar no campo e das emissões de gases de efeito estufa para a produção de etanol - levando em conta toda a cadeia - está associada ao uso de fertilizantes. A sustentabilidade de alguns biocombustíveis e os seus benefícios em reduzir as emissões de gases de efeito estufa foram até questionados em passado recente devido às emissões associadas ao uso de fertilizantes nitrogenados. O etanol de cana brasileiro acabou ficando numa posição um pouco mais privilegiada naqueles estudos, mas, o sinal de alerta se acendeu indicando que precisávamos prestar atenção nessas emissões. Até cinco anos atrás, as informações sobre emissões de gases de efeito estufa na produção de cana-de-açúcar no Brasil eram raras. Um dos artigos que tratava do assunto colocou que quase 4% do N dos fertilizantes nitrogenados  usados na produção de cana eram emitidos como óxido nitroso - com base nos poucos dados que havia no Brasil e em dados de altas emissões em outras áreas do mundo. Para quem não está habituado com esses números, esse valor pode parecer irrelevante, mas, o IPCC - o Painel Intergovernamental para Mudanças Cimáticas, usa como referência perdas de 1%. Ocorre que o óxido nitroso tem um potencial de aquecimento global cerca de 300 vezes ​superior ao do dióxido de carbono (CO2). Assim, pequenas emissões podem ter um peso grande.  Em função disso, nosso grupo bem como outros no Brasil, passaram a pesquisar esse assunto. Descobrimos, por exemplo, que na maior parte dos casos as emissões de óxido nitroso eram iguais ou inferiores a 1%, o que nos dá uma certa tranquilidade. Porém, quando associamos o uso de fertilizantes, palha e vinhaça, as emissões podem subir muito, dependendo das condições do campo e do clima. Nosso objetivo passou a ser estudar maneiras de reduzir essas emissões pois o cultivo de cana não pode prescindir da adubação nitrogenada. Além disso, tanto a manutenção da palha como a reciclagem de vinhaça no campo trazem muitos benefícios.  Descobrimos também que se adicionarmos inibidores de nitrificação aos fertilizantes nitrogenados, as emissões de óxido nitroso podem ser drasticamente reduzidas em cana-de-açúcar.  As questões que ainda precisam ser resolvidas é como viabilizar isso na prática.

FA: Sua pesquisa pode ser repicada para outras culturas?

HC Sim, muitos dos resultados obtidos  com citros e cana-de-açúcar podem ser replicados  com outras culturas pois as emissões de gases de efeito estufa são fruto de reações que ocorrem naturalmente nos solos, com qualquer cultura.

FA: Outros países já demonstraram interesse em conhecer seu trabalho? Como suas pesquisas poderiam beneficiá-los?

As questões de emissões de gases de efeito estufa são discutidas intensamente em fóruns internacionais e nossos resultados se somam a de pesquisadores de outros países. Porém, há pouca gente no mundo fazendo pesquisa em solos tropicais, daí a importância do nosso trabalho. Além disso, os dados que estamos obtendo ajudam a comprovar que o etanol brasileiro, de cana-de-açúcar, tem realmente indicadores robustos de sustentabilidade.

FA: Até que pondo a agricultura que se pratica hoje no Brasil é uma agricultura realmente sustentável?

A agricultura brasileira tem números invejáveis em termos de sustentabilidade, embora, a imprensa estrangeira e, muitas vezes, a brasileira, fique procurando aspectos negativos, tais como desmatamento, queimadas, uso excessivo de agroquímicos, entre outros. Pouca gente presta atenção no fato do Brasil, em pouco mais de 30 anos, ter passado de um país com falta de segurança alimentar para um dos grandes exportadores de alimentos no mundo. Essa revolução foi feita com o desenvolvimento de tecnologias agrícolas apropriadas para a região tropical e subtropical e não por importação de tecnologias. O plantio direto e mais recentemente, a integração com pecuária e floresta, são exemplos disso. Os aumentos de produtividade que o Brasil alcançou nos últimos 30 ou 40 anos, com o uso de modernas tecnologias agrícolas e de fertilizantes, permitiram que o Brasil deixasse de abrir cerca de 100 milhões de hectares de áreas novas para produzir alimentos. Caso a agricultura brasileira não tivesse avançado nesse período e se tivéssemos produzindo grãos com os mesmos índices de produtividade dos anos 1970, precisaríamos de 100 milhões de hectares adicionais de terra para termos as mesmas quantidades de alimentos que produzimos hoje. Além disso, o Brasil é um dos países com a legislação ambiental mais restritiva do mundo e, embora seja uma potencia agrícola, mais de 60% do território brasileiro é ocupado por florestas e áreas de proteção.

FA: Como conciliar o uso correto de fertilizantes, plantio direto, Sistema Integração Lavoura/Pecuária em prol de uma agricultura sustentável?

HC: Esse é um desafio permanente e creio que os agricultores, instituições e cientistas brasileiros vêm fazendo sua parte. Os dados mostrados acima são uma mostra disso. Obviamente, ainda há muito o que fazer.  Porém, é preciso que  divulguemos nossos dados, publiquemos e entremos ativamente nos debates internacionais​ para mostrar essa outra face, altamente positiva, desconhecida ou ignorada por muitos. Esse prêmio que ora recebo, me permite abrir uma janela para fazer isso e mostrar não só o meu, mas o trabalhos de muitos colegas brasileiros que participam dessa boa batalha. Embora o Norman Borlaug essa ano tenha sido conferido a mim, considero que é um prêmio que deve ser repartido com uma geração de pesquisadores brasileiros que vêm se dedicando as questões de fertilidade do solo, nutrição e manejo sustentável da agricultura.
 
 
 

Fonte: Fundação Agrisus
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